O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Voto obrigatório

— Pescaria? Só se tiver muié no meio. Acho um saco ficar sentado, segurando uma vara, olhando pro nada, esperando a vara tremer pra fisgar o peixe. E aquela mosquiteira te picando, zumbindo no ouvido? Tenho aflição pra tirar o peixe do anzol, acho que ele vai me morder. Pescaria é um horror. Sem muié ainda? Tô fora.

Geraldino, o Dino, nunca gostou de pescaria. Só vai se tiver farra. Adora uma farra, principalmente com mulher na parada. A turma desta vez é grande: Didi e Totó, irmãos do Dino, mais o chefe do Didi, e um pessoal do trabalho. A maioria na faixa dos cinqüenta, sessenta anos. A pescaria não vai ser demorada. Vão sair no sábado de manhãzinha, passar o dia na beira da lagoa, e voltar no domingo, logo cedo, pra votar. Votar pra presidente, senador, governador, deputado federal, deputado estadual e o escambal.

— Tipo bate-e-volta – é Didi tentando convencer Dino, o irmão mais velho. — A turma é boa. Pelo menos vamos dar umas risadas.

— Dino, ficando aí falando muié, muié... A última vez que foi pescar e levou a sua mulher, você viu no que deu. Tá lembrado? – é Totó, já meio de pileque, aguçando a memória do mano.

Os três irmãos bebem cerveja no boteco da esquina da casa de Dino, como fazem toda sexta-feira.

— Não gosto nem de lembrar a vergonha que eu passei, Totó. Todos os anos a gente ia pro Pantanal e pescava coisa nenhuma. Levava uma mulherada de Aquidauana e ficava lá no hotel, na farra. A idade delas variava: vinte, vinte e três, no máximo. Tudo xuxu. Depois comprava uns peixes na peixaria e voltava pra casa. As nossas mulheres nem desconfiavam, adoravam que a gente ia pescar e trazia um monte de peixes.

— Eu me lembro, eu me lembro! Você me mostrou umas fotos, escondido, uma vez – anima-se Didi. — Cada uma melhor que a outra.

— Só princesa. Maior esquema com a pousada. Aí, a minha mulher inventou de um ano ir todas as esposas da turma, pra pescaria. Assim, vocês não vão se sentir tão solitários, pescar e a gente fica no hotel, tomando sol. Depois a gente prepara uma peixada fresquinha, uma caipirinha... De noite, mata a saudade... – fala Dino, imitando a voz da própria esposa.

— Aí é que foi a merda, né, Dino?

— Pois é. A mulherada foi em peso. Não sei quantas malas, era frasqueira pra tudo quanto é lado. Nem bem colocamos os pés na pousada, já veio o Seu Miranda, o gerente, dar as boas-vindas: Putada véia que o senhor trouxe esse ano, hein, doutor Geraldino?

Depois de mais algumas cervejas, acompanhadas de stanheguer, no boteco, Dino topa ir pescar com os irmãos e mais o pessoal do trabalho do Didi. Não tinha nada pra fazer no sábado. Mesmo assim, é categórico: pescaria só com homem não tá com nada.

A van, pra levar a turma, já estava acertada: sábado, sete da matina, na porta da casa do Didi. Totó ficou encarregado das caipirinhas, Dino das cervejas, um outro dos repelentes, outro do estojinho de primeiros socorros e assim por diante. Levariam redes pra amarrar nas árvores. Dormiriam ao relento. Bate-e-volta.

No sábado cedo, antes de sair, Totó inventa de levar caldo de mocotó. Faz frio em pleno outubro. Garoa sem parar. A van passa de casa em casa pra pegar os pescadores. Totó ouviu, não lembra onde, que caldo de mocotó quentinho é tiro e queda contra o frio. Principalmente no sereno. Todos se convencem da importância do caldo de mocotó na pescaria. Perdem um tempão procurando açougue que tenha a iguaria. Quando acham, alguém lembra que caldo de mocotó só é bom se preparado em panela de pressão. Cadê a panela? Resumo da ópera: saem pra pescaria muito mais tarde que o planejado.

Na estrada, um caminhão tombado no meio da pista contribui ainda mais para o atraso. Frio desgraçado. Cinco graus. Totó libera as caipirinhas pra galera, na van mesmo. E experimenta todas: manga, maracujá, coco, limão e até de kiwi, um néctar, segundo o próprio. Latinhas de cerveja também estão permitidas a bordo. No entanto, a van não vai parar pra ninguém fazer xixi. Olha as horas.

Chegam na represa no final de tarde, início de noite. Lusco-fusco. Neblina total. Não se enxerga um palmo diante do nariz. Frio de lascar. Amarram as redes nas árvores e Totó ‘desmaia’ em uma delas, completamente embriagado. Mais caipirinha, mais cerveja, agora com a companhia do Sangue de Boi, que o chefe do Didi trouxe e fez questão que todo mundo experimentasse. Jogam a tarrafa na represa.

Acontece que a tarrafa fica presa em algum galho no fundo. O chefe do Didi, metidão, já com Sangue de Boi até a tampa, mergulha na represa gelada e esfumaçada para soltar a tarrafa. Fica um tempão debaixo d’água. Os colegas da firma gritam: ele morreu, ele morreu! Totó ronca na rede. Todos correm para a margem. De repente, o homem emerge, esbaforido. Soltara a rede. Os companheiros o enrolam em um cobertor. Dá conhaque pra ele, alguém sugere. O frio aumenta. A noite avança. Jogam a tarrafa novamente. E esquecem.

— Vamos colocar a panela com o caldo de mocotó na fogueira – fala Didi. — Isso espanta o frio que é uma beleza. Receita da minha santa mãe, que tá lá no céu.

Quase meia-noite. Nenhum peixe. Pileque geral. Começam a discutir política, quem vai votar em quem. Totó ronca alto. Não deu cinco minutos, já tem gente se estranhando na beira da represa gelada.

— Vamos abrir a panela, pessoal! – Dino coloca panos quentes nas brigas.

Acontece que o caldo do mocotó grudou na tampa da panela e quem consegue abri-la? Alta madrugada.

— Essa merda tá muito quente! Isso só vai abrir na porrada, gente.

Pegam um pedaço de pau e começam a bater na tampa da panela. Forte. O caldo começa a espirrar pra fora. Isso é uma nojeira, diz um deles. Conseguem, finalmente, abrir a tampa da panela. Com a pressão, o caldo explode e cai todo no chão, bem embaixo da rede que Totó dormia. Dormia, porque acaba de acordar com o barulho das pauladas na panela. Trançando as pernas, escorrega no caldo de mocotó e cai sobre ele.

— Quem foi o fiadilmaputa que cagou no barranco? Tá com fogo no rabo!

Didi logo tira Totó daquela sujeira. Totó, tonto, olha para a represa coberta pela névoa, iluminada pelas tochas de fogo que os companheiros de pesca colocaram na margem.

— Olha aí a Avenida Paulista, que beleza! Isso vai desovar na casa do Senhor.

Ninguém entende o ‘desovar na casa do Senhor’. Ficam de olho nele, o cara tá maluco. Totó, dizendo-se Jesus Cristo, anda em direção à represa. Dois passos e cai dentro d’água. Foi um custo pra tirar o Totó da represa supergelada. O dia está amanhecendo. O pessoal no maior fogo. Peixes? Que peixes?

— Galera, vamos aproveitar e voltar pra casa. Daqui a pouco vamos ter de votar – lembra Didi.

— Sabia que essa pescaria não ia dar em nada – é Dino mal-humorado. — Bando de cueca...

— Voto obrigatório é uma merda – reclama Totó, entre um espirro e outro. — Pra quê?

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