O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Bem curtinho

— Bem curtinho, por favor!

— Curto???

Júlio, o que cuida das minhas melenas há não sei quantos anos, não acreditou.

— Seu cabelo sempre foi bonito assim, comprido.

— Bem curtinho, Julião!

— Na sua idade ninguém tem mais cabelo desse jeito...

Depois de mais de vinte (trinta? quarenta?) anos, resolvi abandonar meu modelito Jovem Guarda e adotar um menos nostálgico. Não foi fácil chegar ao barbeiro (onde corto, não é cabeleireiro, é barbeiro mesmo, desses de bairro, só espada) e mandar cortar quase tudo. Desde o momento que resolvi mudar o visual, hesitei. Muito. Passei em frente ao salão do Júlio pelo menos umas cinco vezes, no mínimo, em três dias seguidos, antes de entrar, decidido.

— Não vai se arrepender?

— Faz meses que eu tô pensando nisso.

— Então eu vou deixar uns quatros dedos. Assim, tá bom?

Medi o comprimento sugerido, com os meus dedos.

— Três dedos tá de bom tamanho, Julião. Manda bala!

Cada tesourada que ele dava era um pedaço de mim voando pra baixo. Coisa mais estranha... Não faz mal, cresce. Não desgrudava os olhos do espelho, pra ver como estava ficando a minha cara. E levara a última Piauí, pra ler a matéria imensa que uma jornalista carioca fez com o Ricardo Teixeira, pra ‘passar o tempo’, enquanto cortava cabelo. O chão verde do entorno da cadeira era só cabelos. Brancos, a maioria. Agora não tem mais jeito. Não faz mal, cresce.

— Só não quero raspadinho atrás, feito cu de galinha, Julião!

— Pode deixar. Pinto?

— Jamais!

O serviço não durou cinco minutos. Que cara era aquela? Quanto tempo não me via daquele jeito? É diferente de quando saía do banho, cabelos molhados, tudo pra trás. Havia peso, volume. Agora não. É um frescor só. E atrás, na nuca, cadê? E essa orelha de fora? E esse narigão? E essa cara de fuínha?

Alguns clientes disfarçavam, faziam de conta que não estavam observando o Júlio trabalhar, no entanto, seus olhares os denunciavam: tavam tirando o maior sarro da minha cara. Sabe aquele sorrisinho sem mexer um músculo da face, aquele olhar de pra mim esse cara é boiola?

— Ficou bom, tá com o rosto mais leve – disse o Júlio —, mas prefiro mais cheinho.

Fui pagar...

— Hoje é cortesia da casa.

Pronto! Ficou uma bosta! Pro Júlio não ter cobrado... Nunca fez isso! Saí de lá arrasado.

No caminho de volta pra casa, fui me olhando nos vidros de todas as vitrines do caminho, sem exceção, nos insufilms dos carros, em tudo que refletia imagem. Quando havia espelho em alguma loja, parava, disfarçava. Fazia de conta que estava interessado em algum produto exposto e, com o rabo do olho, analisava o novo visual. Olhava em volta da orelha (achei que uma costeleta tava maior que a outra), na parte de cima (o Júlio podia ter tirado um pouco mais), do lado...

Minha sensação era que todo mundo no bairro reparou que eu havia cortado cabelo. E eu caminhava sem olhar pra ninguém, fazendo o tipo preocupado com os negócios, acreditando, mesmo, que todos ali no Itaim Bibi estivessem me olhando.

Pelo menos não vão me chamar mais de Ferreira Gullar nem de Roberto Carlos, consolei-me. Lembrei da cozinheira do meu primo de Florianópolis, quando entrei na cozinha da casa e ela pediu pra me afastar de lá, pra não cair cabelo nas comidas. Disse a ela que não ia ter mais esse problema, porque logo logo ia cortar bem curtinho. No que ela falou, sem olhar pra minha cara: isso aí é o seu xodó, duvideodó. E olha que ela me conhecera naquele instante. Também pensei em uma amiga, que jurou que dançaria em cima da mesa da festa junina da escola do meu caçula, caso eu cortasse o cabelo bem curtinho. Duvideodó que ela vai cumprir a promessa.

Não via a hora de chegar em casa, entrar no elevador, apertar o décimo-oitavo andar (moro no segundo), e ficar olhando como tinha ficado o corte bem curtinho, por todos os ângulos ao mesmo tempo, já que lá tem espelhos por todos os lados. Um espetáculo!

Exausto, com o peso do globo nas minhas costas, afinal, o mundo estava olhando pra mim na rua, entro em casa. Minha empregada, aspirando a sala, me vê, desliga o aparelho, cai na gargalhada. Desculpa, nunca vi o senhor assim, diz ela, sem graça. Do outro jeito de antes ficava mais alinhado, sei lá, fala rápido, engolindo o riso, fugindo pra cozinha. Minha mulher aparece.

— Que lindo!

— Tá me gozando?

— Adorei! Tá uns dez anos mais jovem!

Só aí relaxei. Um pouco. Mas não ficou muito curto? Mas não fiquei muito narigudo? Mas ficou bom atrás? Mas de lado não tá esquisito? Mas por cima não parece uma pirâmide?

— Tá perfeito!

Nisso, meu caçula, o Leo, 9 anos, passa pela sala, parece que não me reconhece. Volta, olha bem pra minha cara. Não diz nada, não sorri. Ele nunca me viu de cabelos curtos na vida dele. Eu nunca o vi tão sério assim.

— Sou eu, filho!

— Eu sei, pai!

— E aí, gostou?

— Gostou do quê, pai?

— Do cabelo, não reparou?

— É... Ficou legalzinho.

— Gostou ou não gostou?

— A parte de trás ficou boa. Sem cabelo branco, né, pai?

O resto do dia o Leo não tirou mais os olhos de mim. Sempre sério Quando foi dormir, fui lá no quarto dar um beijo nele.

— Você é que tá precisando cortar esse cabelo agora, filho.

— Já?

— Já! Não tá entrando nos olhos?

— É...

— Vai cortar igual ao do papai, né?

Leo não diz nada. Fica alguns minutos em silêncio, olhando pro teto.

— Vai cortar igual ao do papai, né?

Ele faz cara de terror. Vira-se pro lado, cobre a cabeça.

— Dorme com Deus, filho!

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