O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Dieta alimentar

— Só dois, por gentileza.

Ela deve ter uns 80 anos de idade. Conhecida no bairro, amiga de todos os funcionários da padaria. Simpática. Sempre bem vestida, cabelo (marrom) impecável. Estatura baixa. Dona Rosita.

O moço da padaria embrulha os dois pães. Outro rapaz despeja uma fornada de pão de queijo na bandeja da vitrine do balcão.

— Posso pegar um? Tá quentinho... Muito, muito bom. Posso pegar mais um? Quanto é o quilo?

Dona Rosita já fez Bodas de Diamante (60 anos). Vive só com o marido. As duas filhas, que lhe deram netos e mais uma bisneta que vem por aí, moram no bairro.

Dona Rosita faz dieta há anos, segundo se comenta na padaria. Diabetes. Não pode exagerar nas guloseimas nem nas gorduras. O marido fica no pé dela. Todo dia ela compra dois pães: pra ela e pra ele. Só. Afinal, tá de dieta. Ele também.

A mocinha ao lado dela pede 300 gramas de pastel de queijo.

— O pastelzinho saiu agora? Cara boa. Posso pegar um pra experimentar? Queijo, né? Adoro pastel de queijo. Nos meus bons tempos, eu só ia na feira pra comer pastel. Meu marido queria me matar. ‘Só come porcaria, Rosita!’. Esse pastelzinho tá uma delícia. Vou roubar mais um, posso? Quanto é o quilo?

Em cima do balcão da padaria tem uma boa variedade de salgadinhos, coxinhas, empadinhas, croquetes, pizzas...

— Essa empada tá com um aspecto ótimo. Deixa eu ver, filho. Minha avó era boa de empada, mas como essa aqui, nunca comi. Desmancha na boca. Que gostosura... Quanto é mesmo o quilo?

Dona Rosita já está ao lado da fila dos frios. No balcão, algumas amostras de diferentes tipos de queijos, cortados em quadradinhos.

— Esse tá muito salgado. O sal é um veneno pra saúde, sabia? Deixa eu ver esse outro. É, mais ou menos. Esse aqui parece menos salgado. Muito bom... Muito bom mesmo. E o quilo, quanto é? Nossa, caro, hein?

Uma jovem pede 200 gramas do queijo que ela experimentou duas vezes por último e gostou. O funcionário da padaria começa a cortar.

— Moço, corta uma fatia pra mim, por gentileza? Pode ser um pouco mais grossinha?

Dona Rosita vai pra fila do caixa, engolindo a fatia do queijo.

— Brigadeirinho? Deixa eu ver se é de hoje mesmo.

Dona Rosita paga os dois pãezinhos. Como sempre.

— Muita obrigada. Deixa eu ir. Acordo cedinho amanhã. Médico. Fazer o quê?

Dona Rosita vai com o marido para o médico. Leva os resultados dos últimos exames. As taxas estão lá em cima. Como sempre.

No caminho pra casa, o marido estressa-se com ela. Afinal, a mulher faz dieta há tantos anos, tudo direitinho, segue à risca as orientações médicas, só um pãozinho por dia, e nada? Nenhuma melhora? Ele não sabe mais o que fazer.

— Rosita, meu bem! Acho melhor a gente mudar de médico. Urgente!

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