O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Mineiros dos séculos passados

Alberto era fazendeiro. Nascido e criado no mato. Nunca cuidou direito das suas terras, herdadas de antepassados. Mario era da cidade, tinha um cartório, herança do pai.

Alberto era baixo e cabeçudo. Mario era alto e magro. Muito magro. Tão magro, que quando foi tomar banho em um hotel de luxo no Rio de Janeiro, o jato da água do chuveiro o jogou no chão. Foi salvo pelo neto mais velho.

Alberto gostava de fazer poesias. Os temas: amor, solidão, tristeza, abandono e morte. Escrevia tudo em cadernos, a lápis, letrinha caprichada, regular e firme. Nesses mesmos cadernos, copiava poemas de outros autores, como Olavo Bilac, Raimundo Correia, Camões, encontrados em jornais e revistas da época.

Mario tinha boa caligrafia. Lavrava suas escrituras com o bico-de-pena molhado no tinteiro, e depois arrematava o serviço com o inseparável mata-borrão. Vivia para o cartório, mas não dispensava um carteado. Todo final de tarde, dava uma passada no clube para jogar pôquer com os amigos.

Os dois fumavam. Alberto gostava de pitar – tanto fazia cigarro de palha ou de tabaco – debaixo das árvores da fazenda, à sombra, onde aproveitava e escrevia versos. Segurava o cigarro entre os dedos médio (pai-de-todos) e anelar (seu-vizinho). Vários maços por dia.

Mario fumava Douradinho (a marca), com piteira. Certa vez, quando descobriu que um dos netos estava fumando, veio o conselho: ‘Isso é um veneno, menino, larga essa porcaria!’. O neto não deixou por menos: ‘Mas o senhor não fumava até outro dia, vô?’. E ele, soberano: ‘Fumei durante cinqüenta e cinco anos. Abri os olhos em cima da hora!’.

Alberto e Mario bebiam. O primeiro não dispensava a cachacinha antes das refeições. O segundo, só tomava uísque importado. Naquele tempo, não existia esse destilado em qualquer supermercado Nem supermercado tinha. Ele mandava vir de fora. Importava. Quando viajava para o Rio de Janeiro ou para São Paulo, levava suas garrafas e as colocava em cima das mesas dos restaurantes dos hotéis. Só pedia gelo para o garçom. ‘E rápido, que eu estou com sede, criatura!’

Outra coisa que Alberto e Mario tinham em comum era a admiração pelo sexo oposto. O da fazenda, quando veio para a cidade, com mulher e oito filhos, depois que perdeu todo o patrimônio, descobriu as mulheres. Foi seu período mais produtivo em termos literários. Além dos poemas, começou a cometer quadras.

Deixa, bobinha, esse orgulho, / Saibas fingir e seres sagaz, / Porque, com esse barulho, / Perdes comigo todo cartaz.

Ou esta: Meu bem, para que te quero / Sabendo-a hipócrita assim? / Com esse teu lero-lero, / Nenhum favor fazes a mim.

Era machista: A mulher para ser querida, / Grande, honesta e bondosa, / Deve conhecer do lar a lida / E deixar de ser orgulhosa.

Mario tinha os olhos verdes. Pingava uma gota de limão (sim, a fruta) em cada olho, todas as manhãs. Dizia que ressaltava a cor e fazia bem para a vista, azedando o ciúme incontrolável da esposa: ‘Isso aí é pra enxergar melhor as raparigas da rua do comércio’. Ele virava as costas e saía. Teve uma filha fora do casamento, reconhecida, além dos três oficiais. Alberto também acompanhou Mario no quesito ‘fora do lar’. Mineiros...

Ambos vaidosos. Desde que perdeu a fazenda e foi morar na cidade, Alberto passou a fumar cachimbo e a andar de terno de linho branco pelas ruas. Mario, sempre elegante, também só vestia linho branco. As camisas, engomadas, não tinham colarinhos. Ele os colocava no momento de dar o nó na gravata. Cada dia uma abotoadura diferente, de ouro. Sempre de suspensórios (magro daquele jeito, não havia meio de segurar as calças).

Alberto não sabia dirigir, andava à pé. Mario, ao contrário, desfilava pela cidade com seu automóvel último tipo, um VW 1600 TL, quatro portas, azul-calcinha, mais conhecido como ‘Zé do Caixão’. O carro era todo preparado para que não fosse pego de surpresa com alguma estranha no banco da frente. Mandou colocar persianas nas janelas e no vidro de trás. Só enchia o tanque com gasolina azul (a ‘aditivada’ da época, muito mais cara que a ‘amarela’).

Mesmo com a perda da fazenda, Alberto conseguiu formar todos os filhos nas melhores faculdades do país. Mario idem. Alberto teve 21 netos oficiais, Mario 8. Alberto não gostava muito de crianças por perto, principalmente, os meninos. Chamava-os de ‘bostinhas’. Mario só dava atenção para a primeira neta, não tinha paciência com os outros, ‘fazem muito barulho’.

Alberto morreu enquanto caminhava. Caiu em frente à casa de uma das filhas. Houve suspeita e comentários que havia tomado forte veneno. Nada foi apurado. Nem o laudo médico atestou.

Quando, oh! Minha mãe amiga, / O túmulo chamar-me sem piedade, / Não choreis, é o leito que a morte nos obriga. / Mas, lá sentirei de ti grande saudade.

Mario foi morar no Grande Hotel, o melhor da cidade. Ficava no terraço do apartamento, olhando a vida terminar. Quando fizeram a foto da fachada do hotel, para o cartão postal, lá estava ele na sacada. De suspensórios. Está perpetuado no display da portaria.

Alberto (1884-1959), pai do meu pai, foi avô pela primeira vez aos 58 anos. Mario (1894-1974), pai da minha mãe, aos 57. Mineiros, de Uberaba.

Outro dia, meu filho mais velho, João, 29 anos, me contou que vai ser pai. A boa nova foi anunciada em um almoço arquitetado por ele, pra mim e pra mãe dele: ‘Vocês vão ser avós!’. Na lata.

Já? Vô? Vovô! Nesta idade? Tô com 58... Pelo histórico, tá mais do que na hora.

Que venham os bostinhas!

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