O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

O mocassim

— Ah, não! O jantar é descontraído. Coloca o mocassim!

Você já reparou num mocassim?

Mocassim é invenção de índio. Índio americano, daqueles que sempre apanharam do John Wayne no cinema. Eram sapatos feitos de casca de árvore, sem salto.

— E sem meias!

O mocassim foi modernizado, hoje é encontrado em qualquer parte do mundo, em couro, lona, camurça e até verniz.

— Põe com aquela camisa listradinha...

Segundo importante consultora de moda, “não há combinação mais contemporânea do que jeans, camisa para fora da calça, e um mocassim – sem meias! – no pé”. Sugere também calças de linho ou algodão e bermudas, para acompanhar o calçado.

No Brasil, o mocassim foi adotado pelos homens dos mais variados estilos de vida, sem exceção. No entanto, importante registrar, sempre, de acordo com o ‘olhar’ das suas respectivas mulheres.

— Esse mocassim que eu te dei caiu como uma luva no seu pé!

Para aqueles que trabalham com terno e gravata, o mocassim é o segundo sapato da casa, perdendo apenas para o couro alemão, com cadarço. Eles têm dois ou três mocassins no armário, dependendo da ocasião.

O primeiro é para jantar fora, às sextas: marrom, de franjas, para usar com as calças jeans, passadas com vinco, e a camisa listrada, de mangas compridas, com duas dobras nos punhos, dentro da calça, como determina a patroa, enrolada numa toalha, enquanto seca o cabelo, na frente do espelho. Sem meias, meu bem!

O segundo mocassim, com solado de bolinhas de borracha, é para o almoço do domingo com a família, no restaurante da moda, sempre lotado. Mais descontraído, o mocassim – sem meias! – acompanha a bermuda bege, com cinto, e a camiseta pólo, de uma cor mais escura, enfiada para dentro da bermuda.

O terceiro mocassim serve para o ‘casual day’ – o dia que os americanos, sempre eles, inventaram para as pessoas irem trabalhar, todas as sextas – sem terno e gravata, para os homens, e sem aquelas roupas caretas e sem a menor sensualidade, para as mulheres –, porque, afinal, a empresa se preocupa com o bem-estar dos seus ‘colaboradores’. Aí, eles vão de camisa social, calça social e mocassim – com meias! – combinando com o cinto. E elas de calças jeans bem apertadas, blusas decotadas e sandálias de saltos altíssimos, mas isso já é uma outra história. Vale registrar que médicos e dentistas também aderiram ao mocassim, branco – com meias (brancas)!

— Não aguento mais olhar para cara desse mocassim!

Existe a turma que não larga o mocassim. Tem vários no armário. O do teatro/jantar da sexta, o do churrasco do sábado e o do almoço da casa da sogra, do domingo. Além dos outros mocassins mais velhinhos, de anos atrás, que não servem para mais nada, a não ser ocupar espaço e acumular mofo na sapateira, para os chiliques diários da esposa.

O da sexta é para sair à noite com os amigos. É o mocassim mais novo – sem meias! –, acompanhado das calças jeans e da camisa listrada colorida, para fora da calça, com as mangas arregaçadas até os cotovelos, segundo veredicto da patroa.

O do sábado é aquele mais surrado, totalmente moldado ao pé. É para encher a cara com os amigos no churrasco. Bermudão e camiseta pra fora. É o mocassim manchado com molho à vinagrete e cerveja.

Nesses encontros, os comentários são inevitáveis, porque todos calçam mocassins: Manêro esse seu, importado?... Orra, meu, vi um em Buenos Aires que era um espetáculo! Só não comprei porque a minha mulher torrou o meu cartão... Deixa eu ver o solado do seu... Essa franja aí é coisa de boiola...

É o festival do mocassim! Lá pelas tantas, tiram os calçados pra ir jogar bola, e não se lembram mais onde deixaram. Cadê o meu sapato, amor? E a esposa, bebericando uma caipirosca junto com as outras mulheres, grita, lá do outro lado: E eu é que sei do seu sapato fedorento? Kkkkkkkkk!

— Você tá precisando comprar um mocassim novo!

É quando o mocassim já virou chinelo: preguiça de calçar; enfia o pé, dobra a parte de trás do calçado para dentro, e a parte de trás permanece para dentro. Fica até mais confortável. E o cara não larga dele por nada deste mundo.

Também acontece quando o mocassim do almoço do domingo, na casa da sogra, tá manjado. Até ela cochicha com a filha: Seu maridinho não tem um sapato diferente, não? Não tira esse mocassim encardido. Já sei qual vai ser o presente dele de Natal...

O mocassim virou mania nacional.

Se eu uso mocassim - sem meias?

Nunca! Dá um chulé...

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