O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Quero-quero

 — Quero-quero, pai?

— É. Aquilo ali no gramadão é um quero-quero.

— Nome mais esquisito...

— Tem lugar que chamam o quero-quero de tetéu...

— Té o quê, pai?

— Tetéu. Tetéu ou téu-téu.

— Engraçado... Morde?

— Só tenta bicar quando alguém chega perto do ninho. Olha o tamanho daquele ali, em pé. Deve ter uns 30 centímetros. Da altura de uma régua. Deve pesar umas 300 gramas. Igual galinha.

— Mas não parece galinha, pai.

— Parece quero-quero, filho. Quero-quero é quero-quero. Tudo igual. Tem essa cor cinza e esse preto no peito. Olha só a barriga, sempre branca. Repara nas asas, meio esverdeadas. Veja em cima da cabeça, o penacho, que bonito. São todos iguais.

— Tem o olho vermelho, pai! O olho e o bico. E as pernas também são vermelhas! Passarinho esquisito... Nunca vi!

— Só tem na América do Sul.

— América do Sul?

— É, no Brasil. Você ainda não aprendeu América do Sul.

— Como a gente sabe se é menino ou menina?

— Macho ou fêmea? Não dá pra saber, assim, só olhando, filho. São idênticos. Só sabemos quem é o macho, quando alguma criatura chega perto do ninho deles. Aí, o macho canta de macho. E ataca, piando.

— Ataca gente?

— Ataca quem se aproximar. Quer ver? Vamos lá perto.

— Tô com medo, pai.

— O quero-quero mais grita do que qualquer outra coisa. Vem aqui comigo, filho... Olha esse! Vê como ele fica voando perto da cabeça da gente, piando? Só isso. Esse é o macho.

— Abaixa, pai!

— A fêmea é aquela ali no gramado. Repara como pia e salta sem parar, protegendo os filhotinhos, os ovinhos. Fica com os olhos bem abertos, cabecinha virando pra lá e pra cá, o tempo todo.

— Essa macha aí é brava, hein, pai! Como grita alto! Onde é que eles moram?

— O quero-quero vive no campo. No chão. Faz seus ninhos em gramados.

— Mas passarinho não faz ninho na árvore? Na árvore e no telhado, né, pai? Teve um passarinho que fez um ninho bem debaixo do telhado da vovó.

— É. Mas o quero-quero faz é na grama. Faz até no campo de futebol, sabia? Sempre nas laterais. Quando passar jogo na televisão e aparecer o quero-quero, você vai ver. É até gozado.

— O quero-quero ataca o jogador?

— Ataca. O macho parte pro ataque e a fêmea fica na defesa.

— Engraçado...

— Engraçado é o ovo. Parece pião, filho.

— Pião? Pião de pião?

— É. O ovo parece pião de brincar. Sabe por quê? É que é pra não rolar no chão. E a casca é pintada com manchas escuras, pra camuflar no meio da grama alta.

— Pra o quê?

— Disfarçar. Esconder. Então, ninguém vê e não chega perto. E ai de quem pisar sem querer em um ovo de quero-quero.

— Ataca, né, pai?

— Ataca. O quero-quero também é muito fingido, sabia? Quando chega alguém perto do ninho, ele finge que tá ferido. Aí, ele avança e pega a pessoa desprevenida.

— Credo!

— Olha esses daí que voaram. Veja como são espertos. Como eles não tiveram tempo de fingir que estavam machucados, saíram voando pro outro lado, pra distrair a gente e deixar a gente longe do ninho deles.

— Piam alto, né, pai?

— É. Muito! O quero-quero também é arreliento. Tá sempre se metendo em briga com os outros bichos. São corajosos! Não importa o tamanho. Ninguém se aproxima deles. Nem as capivaras.

— Capirava? O que que é isso?

— Capivara, filho. É um bicho do tamanho de um cachorro grande, que vive no mato, perto de onde tem água. Deve ter por aqui, lá mais perto do rio. As capivaras ficam longe dos quero-quero. Só de butuca. Quando os quero-quero começam a piar, é porque tem perigo por perto. Quanto mais alto, maior é o perigo. Aí, as capivaras, que não são bobas nem nada, já saem correndo pra dentro da água, pra se protegerem. Capivara é um bicho medroso, filho.

— O quero-quero é corajoso!

— Corajoso e atento. Tem gente, que tem empresa com gramado grande, que deixa os quero-quero tomando conta, sabia?

— Tomando conta? Jura?

— É, filho. Igual cão de guarda. Quando alguém se aproxima, os quero-quero começam a gritar. Aí, chamam a atenção do dono. Ele vem e pega o ladrão.

— Nossa...

— Vamos chegar perto daqueles outros ali, filho... Já começaram a gritaria.

— Gritinho chato, né, pai?

— Muito... Chi, filho, tá começando a chover.

— Ôba! Adoro tomar chuva.

— Gostou do quero-quero?

— É...

— Gostou ou não gostou?

— Gostei mais ou menos.

— Mais ou menos?

— É que o quero-quero é muito estressado, né, pai?

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