O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

A mulher do Campineiro

— Isso aí não é nada, você ainda não viu a mulher do Campineiro!

É a primeira vez que ele participa do torneio de basquete de veteranos, Categoria 60+ (apesar de ser 60-), em um hotel 5 Estrelas, no interior do Estado. Torneio tradicional. Calouro total. Nem levou a mulher. Não sabia que o forte da cidade são as compras – malhas, lingeries e couro.

— Tá vendo aquelas duas ali, de shortinhos, na recepção? Gostou? Não chegam aos pés da mulher do Campineiro!

A maioria dos ‘atletas’ leva mulher, filhos e netos. Os filhos e netos brincam no hotel, as mulheres vão às compras e os marmanjos vão jogar basquete e beber.

As partidas são disputadas pela manhã, com árbitros da federação, jogos de camisa e placar eletrônico. Tudo muito bem organizado. Na verdade, o torneio é desculpa para o aperitivo pós-partidas. O bem-bom mesmo é a cerveja gelada, as caipirinhas e as fatias de picanha servidas à beira da piscina. E a liberdade de olhar para as outras hóspedes de biquíni, já que as respectivas torram os cartões dos respectivos. E também cobiçar a mulher do Campineiro.

— Ainda não vi a mulher do Campineiro por aí. Será que ela não veio desta vez?

Depois do porre da piscina, os atletas sobem para seus quartos, descansam, veem um pouco de futebol na tevê e voltam logo mais à noite para o queijo e vinho. E uísque. E cerveja. E tudo mais.

De repente...

— Olha ela lá! Quem disse que ela não vinha?

Surge a mulher do Campineiro, de braços dados com o próprio. A mulher do Campineiro! Morena, alta, cabelos castanhos-escuro, soltos. Sorriso permanente. Dentes brancos. Calças jeans bem justas, enfiadas nas botas de canos longos, saltos altíssimos, camisa preta, decote generoso. Somando a altura dela e o tamanho dos saltos, é mais alta do que muito jogador de basquete do torneio.

— Eu não te falei pra você? Deixa eu ir lá dar um beijo nela.

Nosso calouro fica na dele, já que não conhece a mulher do Campineiro. Nem foi apresentado a ela, pelos companheiros. O calouro também gostou da mulher do Campineiro. Impossível não gostar. Muitos atletas que já estavam se encaminhando com suas mulheres para seus aposentos, resolvem ficar mais um pouco. “Chegou um vinho novo muito gostoso, bem. Só mais um pouquinho...” Os homens se entreolham. As mulheres idem.

Os homens se juntam num canto do bar.

— Isso é mulher pra quinhentos talheres. Ela tá de brincadeira, com essa bota.

— Tá melhor que no torneio do ano passado.

— Eu vou enfartar aqui dentro dessa merda!

— Não vejo a hora de ver ela amanhã na piscina, de sandálias havaianas.

— Minha mulher não tira os olhos de mim. Sabia!

— Dizem que é personal. Também, pra manter esse corpão todo...

As mulheres formam uma roda.

— Biscate! Parece um travesti, com essa bota dessa altura.

— Alguém notou as espinhas no rosto dela?

— Vamos e venhamos, gente, ele é bem apessoada. Classuda.

— Aposto que se tirar essa calça agarrada só tem celulite aí dentro. Esse peito é silicone puro. Assim, até eu, amiga.

— O tal do Campineiro também não é de se jogar fora, reparou?

A orquestra toca forró. Os homens não se animam. Muito menos as mulheres. Eles não tiram os olhos da mulher do Campineiro. Elas olham para eles e para ela, para eles e para ela. A mulher do Campineiro se apresenta no centro do salão, junto com o maridão.

— Olha só como ela rebola. Isso aí é muita areia pro meu caminhãozinho. Não dou conta de tudo isso, não!

— Eu aguento! Tomo o remédio e um abraço.

— Garçom, traz mais duas garrafas de vinho pra gente, por favor!

A orquestra tocando forró, a mulher do Campineiro rebolando, os homens babando e bebendo vinho feito água, as mulheres bocejando. E o nosso calouro na dele. Tranquilo. De olho na mulher do Campineiro, apesar de saber que ela não vai dar a menor bola pra ele.

Os homens conversam, cochicham. Resolvem puxar as patroas para a pista, na esperança de verem a mulher do Campineiro mais de perto. Quem sabe até tocar nela, encostar na bunda dela, sem querer querendo. Sonolentas, as esposas, mesmo não sabendo forró, aceitam dançar com seus maridos. É a oportunidade de conferir, cara a cara, se a mulher do Campineiro está mesmo com essa bola toda.

Na pista, os homens bêbados e fora de ritmo, as mulheres tropeçando nos saltos, ninguém se entendendo. Tinha até um lá, que dançava fazendo biquinho, achando que a mulher do Campineiro estava olhando pra ele. Lógico que a mulher do Campineiro e o próprio não estavam nem aí e deixaram a pista, diante daquilo. O casal também não é bobo. O calouro sorri.

No dia seguinte, logo cedo, a última e decisiva rodada do torneio. O jogo começa. Pau a pau. Ninguém consegue jogar direito. Ressaca total. O time do calouro não se agüenta em pé. Intervalo.

— Foi muito vinho, não tô acostumado. Minha boca está seca, sinto falta de ar – diz o cestinha da equipe, o chutador de três.

— Também do jeito que nós bebemos ontem. Olha só como tô tremendo – rebate o pivô, o que segura tudo lá em cima.

— Foi o vinho. Muito vinho – fala o ala, o que puxa contra-ataque.

— Vinho coisa nenhuma! Foi a mulher do Campineiro! – Conclui a esposa de uma deles, bem simpática, que estava ali, servindo água para os atletas.

Mesmo nesse bagaço, o time do calouro é campeão. Ganham por dois pontos de diferença. Uma cesta. Justo a dele, a do calouro. Recebem a medalha dourada, formam um círculo no centro da quadra, abraçam-se, e gritam: É campeão! É campeão!

Da glória da quadra para a beira piscina, bebemorar a conquista. A mulher do Campineiro está lá, virada para o sol.

— Gostou da mulher do Campineiro, calouro?

— Mais ou menos. Sonhei a noite inteira com ela. E me dei muito bem, não posso negar. Ela quase me mata no sonho. Acordei com as pernas bambas, rapaz... Tive que tomar um banho. Tava fraco...

— Foi por isso que você só fez aquela cesta, de chuá?

— Lógico! A mulher do Campineiro acabou comigo.

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