O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Minhocas

O pai saiu da capital com o filho pequeno e foi pescar no interior. O pai não sabe pescar direito (nunca teve paciência) e o filho jamais pescou (seu sonho).

— Se o senhor for de canoa lá pro meio, o melhor é camarãozinho de água doce, desses bem pequenininhos. Conhece? É pra pegar piranha. Agora, aqui na beira, minhoca. Mas precisa cevar com ração de coelho, antes. Aqui dá mais porquinho. É ponhá e tirá!

— Porquinho?

— É... Tem minhoca lá no armazém da Donana.

Donana vai até o fundo da venda e volta com um balde cheio de terra. Calça uma luva de plástico amarela na mão direita e começa a remexer a terra. De lá, tira minhocas. Imensas. Gordas. Paradas. Agitadas, só quando Donana as pega do balde e as coloca no fundo da garrafa pet de refrigerante, cortada ao meio, cheia de terra, adaptada como embalagem de isca.

— Uso luva porque eu tenho um pouco de aflição de pegar direto na minhoca. Tem gente que tem nojo. Eu não tenho, não. São limpinhas, vivem debaixo da terra.

— Morde?

— Criança tem cada pergunta... Que morde que nada! Não fazem coisa nenhuma. Mais limpinhas que muita minhoca sorta por aí – e belisca o pinto do menino.

— Para! E onde é a cabeça da minhoca, moça?

— E eu sei lá? Só sei que de um lado, numa extremidade, fica a boca; na outra, o ânus.

— O quê?

— Bem... O bumbum da minhoca.

— Então, quando ela estiver comendo, a gente fica sabendo onde é a cabeça e o cuzinho dela, né?

— Quantos anos tem esse menino?

— O que que as minhocas comem?

— Vegetais misturados com terra.

— Éca.

Enquanto a mulher separa as minhocas, o pai do menino observa atentamente os movimentos dela e dos animais anelídeos (a popular minhoca).

— Moça, pra quê a minhoca?

— Isca, garoto. Minhoca só serve como isca pra peixe.

— Isca?

— É. A gente coloca a minhoca no anzol. Tá vendo essa coisinha aqui? Cuidado! Fura o dedinho. Isso é um anzol. A gente enfia a minhoca no anzol e joga no rio.

— Espeta ela aí? Nesse ganchinho? Que irado!

— Se sobrar minhoca, coloca elas num vaso de plantas grande e jogue um pouquinho de água. Mas não vai sobrar nada, porque vocês vão pescar todos os peixes do rio.

O pai passa protetor solar no filho e nele. Põe o boné no moleque e coloca um chapéu, emprestado, do caseiro do rancho onde estão hospedados.

— Dá a minha vara, pai!

— Calma! Deixa eu colocar primeiro a minhoca, senão o peixe não vem.

O pai pega o ‘estojo’ de isca e começa a remexer lá dentro. Sem luvas. Sem nojo.

— Vamos, pai!

Acha uma minhoca. Tenta segurá-la. Arisca. Ela parece menor do que aquelas que a Donana colocara na pet. Será que encolheram? O pai a segura entre os dedos e pega a vara do filho. Tenta enfiar a minhoca no anzol. Ela agita-se toda. Ele espeta o dedo. Ela escapa e cai no rio. Ele sangra.

— Ih, pai!

O pai recomeça a busca por outra minhoca. Elas parecem cada vez menores, cada vez mais assustadas. Com muito custo, segura outra. Prende firme entre os dedos, quase a esmaga.

— Não aperta ela assim, pai! Coitada... Saiu até uma gosminha da ponta, olhai! Vomitou ou fez cocô?

O pai não sabe como colocar a minhoca no anzol. Melhor enfiar pelo ânus, imagina. Aqui é a boca ou o ânus? A minhoca inquieta-se e cai de volta para a pet. E logo desaparece na terra. Elas pareciam tão grandes... Será que percebem que vão ser espetadas, por trás ou pela frente? O pai pega outra, que se encolhe e fica tremendo.

— Essa aí é filhotinha, pai. Parece que tá com frio.

O pai coloca a minhoquinha de volta na terra da pet. Procura mais outra. Acha uma um pouquinho maior, mas longe do tamanho daquelas grandonas que a Donana pegara. A minhoca contrai-se mais ainda. Rebela-se, ao perceber que vai ser furada. O pai atrapalha-se com as mãos. Sem querer, atravessa a minhoca pelo meio. Tem a sensação que enfiou uma lança no próprio peito. Parece até que ouviu um gemido dela. Ela fica se remexendo. Mais viva do que nunca. Ele não sabe mais o que fazer.

— Toma sua vara, filho.

— Mas assim a minhoca vai escapar.

— Toma a sua vara!

— Ué... Não vai pescar, pai?

— Daqui a pouco, filho. Daqui a pouco! Tô com o dedo machucado.

Depois de um tempo, o menino tira a vara do rio, sem a minhoca no anzol.

— Num falei? O peixe comeu ela, pai. Pega outra?

— O sol tá muito forte agora, filho. Vamos pescar mais tarde.

— Aaaa...

O pai e o filho voltam para o rancho e se encontram com o caseiro.

— Pegaram quantos?

— Tem um vaso de plantas aí? Dos grandes?

Contact

Leonel Prata

mgproded@gmail.com

Search site

© 2011 All rights reserved.

Create a free websiteWebnode