O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Dona Gilda

— Me contaram que ele bate em vocês quando não estou por perto. Vocês vão fazer o seguinte, prestem bastante atenção: a próxima vez que ele fizer isso, vocês mordem ele pra valer. Sem dó! Entenderam?

Na semana seguinte, o caseiro do sítio apareceu cheio de arranhões e com várias mordidas nas pernas e nos braços. Os cachorros (buldog, fox paulistinha e vira-lata) ‘ouviram’ direitinho o que a dona lhes ordenara.

Dona Gilda não só tem tempo para falar com animais, como fica ligada 24 horas por dia em tudo que acontece na vida das pessoas O esposo e o casal de filhos (um de 16 e uma de 18) que o digam.

Ciumenta, ela tem certeza que todas as mulheres do mundo cobiçam seu marido, querem passá-la pra trás. Até que provem o contrário.

Certa vez, na saída do clube, Dona Gilda encontrou-se com uma amiga de muitos anos. Não conseguiu lembrar-se do nome dela de jeito nenhum. Pediu para a amiga anotar o telefone num papel e o colocou no bolso do paletó do cônjuge.

Meses depois, ela descobre um papel suspeito em um dos casacos do esposo.

— O senhor pode me explicar o que é isso?

— Isso, o quê?

— Esse telefone de mulher!

— Telefone de mulher?

— Isso aqui por acaso é letra de homem? Letra de professora, ainda por cima! Olha a voltinha do oito...

O marido, lógico, não se lembrava de nada, muito menos de a esposa ter colocado papelzinho com número de telefone anotado com letra de mulher no seu paletó. A vida dele transformou-se num verdadeiro inferno a partir desse momento. Todos os dias, ela passou a atormentá-lo com o papelzinho do telefone ‘desta biscate da sua amante’.

Algum tempo depois, num sábado ensolarado, Dona Gilda reencontra-se com a amiga de muitos anos no clube.

— Gilda, sua sumida! Ficou de me ligar...

Caiu a ficha do papelzinho do telefone na hora. Pra não dar o braço a torcer nem passar por ciumenta, ela não disse nada ao marido. Da noite para o dia, parou de encher o saco dele com essa história.

Com o filho, o estresse da Dona Gilda fica por conta das drogas. Depois que o garoto comeu flor de lírio, porque disseram pra ele que o chá dessa planta dava barato, ela não larga do pé dele.

— Comeu a flor, meu filho? Engoliu? Você não tomou mel, você comeu a abelha, seu moleque irresponsável!

O menino resolve levar uns amigos pra passar o feriadão no sítio. Dona Gilda vai junto.

— Não vou atrapalhar. Vocês podem ficar conversando a vontade, a noite inteira, dormir até tarde, ficar sem tomar banho... Só vim pra preparar a comida e dar uma arrumada na casa.

Os jovens, todos os dias, vão dormir com o sol raiando, depois de muitas risadas e barulho de latinhas de cerveja se abrindo na sala, atrapalhando a insônia da Dona Gilda.

Ela sempre foi invocada com um dos garotos da turma, o mais risonho de todos: ‘É esse menino que leva o meu filho pro mau caminho... Ainda pego ele de jeito...’.

No dia da turma voltar pra casa, ela faz questão de arrumar as mochilas de cada um.

— Podem ir pra piscina tomar a cervejinha de vocês, que eu ajeito tudo. Isso é coisa de mãe.

A primeira mochila é justamente a do amigo do filho, que ela implica. ‘Tanta risada assim eu nunca vi... Aqui tem coisa...’ Fuça, fuça, não acha nada. ‘Ai, que alívio... Jurava que ia encontrar alguma droga no meio dessa bagunça fedorenta’. Quando vai fechar o zíper da parte da frente da mochila, descobre uma caixinha de pastilhas Valda. Olha prum lado, pro outro, ‘vou roubar uma balinha, ele não vai nem perceber’.

Meio no tato, mãos trêmulas, ela abre a caixinha dentro da mochila mesmo, coloca os dedos pra pegar uma ou duas balinhas e sente um negócio esquisito. Tira de lá a caixinha das pastilhas Valda. Está cheia de uma coisa estranha, parecida com alguma erva que ela nunca viu. Cheira.

— Sabia! Meu sexto sentido nunca falhou. Isso aqui só pode ser a erva do diabo! – diz em alto e bom som, despertando a atenção do caseiro.

— Chamou, Dona Gilda?

— O senhor sabe o que é isso?

— Uma caixinha daquelas balinhas pra dor de garganta, Dona Gilda?

— Cheira isso daqui! Isto é ou não é uma dessas maconhas?

— Eu nunca mexi com essas coisa, não, senhora, Dona Gilda! Não sei nem do que a senhora está falando.

A sorte dos jovens, e do filho, é que Dona Gilda não teria como explicar o aparecimento das ‘pastilhas Valda’ em suas mãos. A história ficou por isso mesmo.

Já com a filha, a preocupação sempre foi sexo.

— É só olhar para essas meninas aí que vivem transando antes do casamento, filhinha. Ficam acabadas. Parecem um bagaço de laranja.

— Menos, mãe!

A menina tem um namorado. Transam, evidente. Mas ainda não é a hora de contar pra mãe, porque sabe perfeitamente do que ela é capaz.

— Minha filha, ouça bem, não quero um bagaço de laranja aqui dentro de casa.

— Mãe, todas as minhas amigas já transaram e a senhora viu algum ‘bagaço de laranja’ por aí? Aliás, a senhora não é nenhum bagaço de laranja. E ainda dá um caldo até hoje, tá ligada?

— Mais respeito, filha!

— Vai dizer que a senhora e o papai...

— ...pelo menos a mãe dessas meninas já levaram elas num médico? Tomam pílulas? Os namoradinhos usam camisinha?

— Tenho uma amiga que a mãe dela é a sua cara, sabia?

— Minha cara como?

— Não larga do pé da filha, coitada. E a garota ficou tão noiada, que esconde a pílula anticoncepcional naquelas caixinhas, naqueles potinhos de plástico de homeopatia. Morre de medo da mãe pegar. Noia total.

— Não exagera, filhinha. Não sou nem um pouco parecida com essa mãe aí...

Desconfiada da história, a mãe vai bisbilhotar a bolsa da filha. Descobre um frasco de Almeida Prado 46. O tal para prisão de ventre.

No dia seguinte...

— Mãe, a senhora não saiu do banheiro a manhã inteira. Comeu alguma coisa que te fez mal?

— Nada não, filhinha... Dá licença, vou ali e já volto.

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