O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Sexagenário

Privilégio tornar-me um sexagenário em um 11 de 11 de 11. A partir desta data cabalística, uma sexta-feira, passei a fazer parte do mundo dos idosos, das gestantes, das mulheres portando crianças e bebês no colo, das lactantes, dos portadores de... Um mundo melhor. Preferencial.

Tudo fica mais fácil do lado de cá, dos acima dos sessenta. Da noite para o dia, como num passe de mágica. Estacionar o carro nas congestionadas ruas de São Paulo, por exemplo, virou moleza. Quantas vagas reservadas aos idosos dando sopa por aí, a qualquer hora do dia ou da noite... É só fazer a baliza.

Se a opção for transporte público, melhor ainda. Recomenda-se, até. Ônibus. Tem lá um assento reservado ao preferencial. Um, não. Dois. Janelinha e corredor. O coletivo pode estar lotado, o lugar está garantido. E com um aviso: pratique a cidadania, dê preferência. Mais: de graça! Os preferenciais andam pra baixo e pra cima sem enfiar a mão no bolso. Podem até deixar a carteira do dinheiro em casa, para evitar aborrecimentos. Entram e saem pela porta da frente!

No metrô, a cadeira de cor diferente está ali, vazia, aguardando o preferencial. E se tem alguém sentado nela, é só se aproximar, olhar bem nos olhos do ocupante, que ele, educado, se levanta num instante: desculpa, senhor! Notaram o ‘desculpa, senhor’? Se tem menos de sessenta, a frase é: ‘foi mal aê, tio’. Menos de sessenta (e mais de cinqüenta) ainda não é idoso. É tio.

Até pra ver o Curíntia a coisa mudou. Tudo na faixa. Sim, no Pacaembu, quem tem menos de 10 e mais de 60, a entrada é franca. Nada de filas enormes na porta do estádio pra comprar ingresso e depois aquele empurra-empurra infernal para adentrar ao local do espetáculo. Pode-se chegar em cima da hora. É só mostrar a carteirinha: pois não, senhor; ali naquela catraca, por gentileza. Se quebra o pau nas arquibancadas, quem é que os PMs protegem? Segurança total, mano.

A vida torna-se muito mais divertida. Os idosos têm direito a meia-entrada para ingresso nos cinemas, teatros, circos, shows e demais eventos esportivos. E sem filas.

Adeus filas!

Supermercado é brincadeira. Pode-se fazer a compra do mês sossegado, que você vai passar no caixa de primeira. Ninguém na sua frente com o carrinho cheio de iogurtes, cervejas... cartões de crédito, de débito... E tem lá o moleque que vai ensacando a compra, rapidinho, dando aquele nó complicado de fazer, mas fácil de desatar, cheio de boa vontade e respeito. Sem contar a vaga especial no estacionamento, bem próxima da entrada do estabelecimento.

Agora, não tem mais aquela história de perder a viagem. Avião, ônibus ou trem, mesmo chegando quase atrasado, como sempre, o preferencial é o primeiro a embarcar e a desembarcar. Sem maiores atropelos.

Nas agências bancárias, apesar de toda a preferencialidade, convém não usufruir. Furar a fila com tanta gente apressada, com tantas coisas pra fazer no resto do dia, não fica bem. Aqui, levar vantagem pega mal. Acho que o idoso nas agências bancárias deve ter de setenta, oitenta pra cima, portando bengala. O sex-agenário ainda dá um ‘caldo’ nas filas dos bancos. Questão de postura. Tempo para conversar é o que não falta. E o que não falta ao neo-idoso é assunto, pra qualquer tipo de situação, morou?

Outro benefício da maior relevância: a restituição do imposto de renda. Ainda está esperando a sua? Os idosos já receberam e já depositaram no banco.

Há os que precisam de um medicamento ou outro. Natural. Na farmácia, o idoso pega o remédio com consideráveis descontos (alguns até gratuitos) no balcão, passando na frente dos outros. Só tem que torcer pra não encontrar outro idoso no caixa. Fila de idosos na farmácia é de deixar qualquer um doente. Paciência...

Vale avisar que, por lei, o idoso não pode sofrer discriminação de qualquer natureza. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de assegurar ao pós-sexagenário os direitos de cidadania. Portanto, olha o respeito!

Viu só como tudo fica mais fácil do lado de cá?

Vida de sexagenário é moleza... Moleza? Até pra isso há remédio.

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Leonel Prata

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