O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

O dia que varreram a areia da praia

A coisa que o menino do cabelo amarelinho mais adora no mundo é brincar na praia.

Todo dia ele acorda, toma leite com bolacha de chocolate, que ele chama de ‘boá’, e vai com a mãe para a praia. Se a mãe não toma cuidado, o menino do cabelo amarelinho foge correndo pra dentro d’água. Feito siri.

Ele também gosta de ficar sentadinho debaixo do guarda-sol, enrolado na toalha, olhando o mar. O que será que tem escondido lá dentro?

Naquela manhã de céu azul, o menino do cabelo amarelinho estava com a mãe brincando na areia da praia, quando apareceu o caminhão. Buzinando, fazendo barulho, chamando atenção. Assustando todo mundo. Uns homens grandes desceram do caminhão com vassouras enormes, pedindo licença.

— Circulando! Nós vamos varrer a areia da praia. Circulando!

A mãe recolheu o baldinho, os outros brinquedos, e pegou o menino do cabelo amarelinho no colo. Foi o maior berreiro! Ele gritou tanto, que ‘convenceu’ a mãe a ficar ali, olhando aqueles homens e aquelas vassouras varrendo a areia da praia. “Qué vê! Qué vê!” Ficaram sentados no banco do calçadão da praia. Vendo.

Os homens varreram, varreram e varreram. Quanto mais varriam, mais a água do mar ia embora lá pro outro lado. Lá pro fundão. Foi ficando tudo limpo, até acabar por completo a areia da praia.

Debaixo da areia da praia só existiam azulejos. Brancos. Branquinhos, contrastando com aquele céuzão azul. Debaixo da areia da praia o chão não era plano. Era cheio de montanhas, subidas e descidas. Ninguém podia imaginar.

Vendo aquilo, encantado, o menino do cabelo amarelinho puxou a mãe pela mão e apontou com o dedinho: “Paia!”. Praia que já não era mais praia, porque a água tinha ido embora. Agora eram só montanhas. Azulejadas, brancas, lisas.

O menino do cabelo amarelinho pegou mais uma boá, pediu a toalha do Ursinho Poh, que estava na sacola. Esticou a toalha no chão, sentou-se em cima e mandou a mãe empurrar: “Estoegá! estoegá!”. Queria escorregar naquelas ‘montanhas’.

Foi a maior alegria. A mãe empurrava o filho até lá em cima e ele escorregava aqui pra baixo. O menino do cabelo amarelinho não queria outra vida.

A mãe, que não é boba nem nada, pegou a toalha azul dela e imitou o pequeno. Os homens grandes, vendo aquilo, não resistiram, deixaram os vassourões no caminhão, sentaram em cima de suas camisas suadas e começaram a escorregar. As pessoas que passeavam no calçadão logo caíram na farra. O sorveteiro, a moça do sanduíche natural, o moleque do refrigerante, o salva-vidas, todos foram escorregar. Cada vez chegava mais gente, crianças, muitas crianças.

E lá no meio do ‘mar’, feliz da vida, soberano, o menino do cabelo amarelinho, todo lambuzado de boá, estoegando, estoegando...

— Isso é que é vida, mãe!

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