O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Basqueteiro veterano

Ele já foi profissional de basquete, nos idos 1970, modalidade tida na época como ‘esporte amador’, de ‘profissionalismo marrom’. Nunca jogou na seleção, nunca foi famoso. Apenas um nome reconhecido e admirado no meio. Mais por causa do seu temperamento, do que pela bola que batia. Jogava direitinho, tinha um bom chute de três, segundo os amigos de então; jogava nada, de acordo com a maioria. Pelo tamanho, 1,75m (‘sou da altura da Hortência e da Paula’), não poderia mesmo ter um futuro à altura dos grandes ídolos. Falava mais do que jogava. No entanto, até hoje, meia-ponto-cinco nas costas, continua batendo sua bolinha com os companheiros de grandes conquistas, continua aprontando das suas. Jamais abandonou o esporte.

Diferente do vôlei, os jogadores veteranos de basquete no Brasil permanecem na ativa. Participam de torneios municipais, estaduais, nacionais e até internacionais. Torneios esses, muitas vezes, realizados graças à atuação efetiva do nosso amigo. Ele organiza, divide as equipes, se comunica com os participantes, enfim, é o dono da bola.

Num desses últimos campeonatos, categoria 60+, realizado em uma cidade do interior, ele fez e aconteceu. Mais de duzentas pessoas, entre jogadores e familiares – esposas, filhos, netos, amantes, agregados, etc. – hospedadas no hotel cinco estrelas local. Nosso atleta, divorciado, foi só. Sempre fez questão de ir desacompanhado nesses eventos, afinal, nunca se sabe o que pode acontecer fora das quadras.

(Cabe aqui um parênteses: ele sempre foi mulherengo, desde as categorias de base; tremendo pé de valsa - aí, sim, na pista de dança, reina absoluto - não importa tamanho, idade, estado civil, credo, cor, ele encara qualquer uma; machista por excelência.)

No coquetel de abertura do torneio, ele bebe todas. Logo se engraça com uma moreninha bem jovem, que rebola seus atributos, solitária, no meio da pista de dança. Aproxima-se. Começam a dançar. Dão um show. Todos param para vê-los bailar. A cada pausa musical, os dois reabastecem seus copos com vinho tinto, e voltam para o salão. A cada música, quanto mais agarra a moreninha, mais os companheiros, acompanhados de suas respectivas veteranas, fecham os olhos, não acreditam no que assistem.

Lá pelas tantas, a moreninha resolve sair do salão, pra tomar um pouco de ar. Ele, cavalheiro, a acompanha. Ela tropeça nas próprias pernas e cai de cara no gramado do entorno da piscina. Ele, prestativo, a pega no colo. Nisso, passa por ali o pivô do time dele, do jogo de amanhã, vindo do salão de carteado, mais pra lá do que pra cá. Bebe-se muito nesses eventos esportivos de veteranos. Aliás, mais se bebe do que se joga.

— Que que tu tá fazendo com a minha esposa? – Grita o pivôzão, mais de dois metros de altura, já completamente fora de si.

— Esposa???

Nosso dançarino arregala os olhos, abre os braços, deixa a moreninha cair no chão, feito um saco de batatas. Sai correndo dali, direto para o salão. Maior dificuldade para os companheiros segurarem o gigante enfurecido. Acabou a festa.

Nesses torneios, os atletas desacompanhados são alojados em apartamentos duplos. Nosso divorciado caiu justamente com o único solteiro do campeonato, o que nunca teve namorada, nunca foi casado, mas também nunca deu pinta. O pessoal sempre achou o cara meio estranho, apesar de ser boa gente, educado, simpático, e grande jogador de basquete. Talvez o melhor de todos os veteranos.

Já no quarto, alta madrugada, nosso esportista, ainda sob os eflúvios etílicos, sonado, levanta-se da cama. Caminha às escuras. Quando dá por si, está fora do quarto, assustado com aquela luz forte nos olhos. Nu. A porta trancada por dentro. O corredor do hotel todo mijado. Bate desesperadamente na porta. Ouve gritos vindos dos outros quartos: vamos parar com esse barulho aí fora, tem jogo amanhã cedo!

Depois de algum tempo, o companheiro de quarto abre a porta, não acredita no que vê.

— Tudo bem, eu deixo você entrar, mas com uma condição: par ou ímpar pra ver quem vai contar essa história pra galera, amanhã na cerveja, depois do jogo – diz o sempre alegre solteirão.

Morrendo de vergonha, escondendo as partes com as mãos, nosso sonâmbulo concorda. Tira o par ou ímpar (perde), entra. E ainda é obrigado a explicar que está acostumado a acordar no meio da noite, em sua casa, pra ir ao banheiro: sai da cama, anda alguns passos, gira à direita, abre a porta, faz o que tem que fazer, volta. Tudo isso sem acender a luz. Acontece que o banheiro do quarto do hotel fica do lado esquerdo...

Diz boa-noite, deita-se, vira-se de costas para a cama do outro, desmaia. Ronca sem parar. Só acorda com as batidas fortes dos atletas vizinhos, na porta do quarto: tá na hora, seus dorminhoco!

Ressaca braba. Cabeça explodindo. Abre um dos olhos, vê o companheiro, já devidamente uniformizado, ajeitando a cama.

— Tá maluco, cara? Não sabe que o hotel tem camareira pra arrumar os quartos?

— Sei, sim. É só pra não dar mais trabalho para elas, coitadas. Que que tem? O hotel tá lotado...

Nosso basqueteiro veterano, mal-humorado, coloca-se em pé, veste o calção largo para o jogo de logo mais, aproxima-se do companheiro de quarto, fala baixo e pausadamente:

— Pode desfazer essa cama já! Se entrar alguém aqui e vir apenas uma cama desarrumada, como é que eu fico nessa história?

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