O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Os meus com sete

Sete anos é uma idade interessante. A criança não é mais bebê, muito menos pré-adolescente. Já lêem e escrevem como gente grande. Ao contrário da minha época, quando, com essa idade, estávamos começando o be-a-bá, pelo Caminho Suave, a cartilha. A cabeça da meninada de hoje é à mil. São sabidas. Atentas. Curiosas. E o que elas fazem na frente do computador?

Tenho quatro filhos e todos já passaram pelos sete. Com cada um deles, nesse período, vivi situações surpreendentes, pela perspicácia e ingenuidade ao mesmo tempo, paradoxos típicos da idade.

Quando existia o Circo Escola Picadeiro, onde hoje é o Parque do Povo, o pessoal de lá sempre fazia promoções para chamar a atenção do respeitável público. Certa vez, penduraram um automóvel Fiat, por um cabo, mais ou menos na altura da lona do circo.

Toda vez que passava de carro por ali, com o João, o meu filho mais velho, que em breve será papai, ficava intrigado.

— Mas o que é isso, esse carro pendurado? Coisa mais perigosa, né, filho?

João levanta-se do banco de trás, estica o pescoço, pensa um pouco.

— Promoção, pai.

— Promoção?

— É, pai, promoção! Fica todo mundo embaixo olhando o carro lá em cimão. De repente, o homem solta o carro. Quem pegar ganha.

Teve uma época em que apareceram muitos ratos no clube Pinheiros. Coisa séria. O que fazer? Nada mais natural do que colocar gatos para pegar os ratos. Só não contavam que gatos, além de ratos, preferem, antes de mais nada, as gatas. O clube ficou infestado por gatos, gatas e gatinhos, para alegria da criançada. E desespero dos demais associados. Era o assunto recorrente na comunidade.

Estava de carro com o Gabriel, o segundo filho, pela Faria Lima, bem ao lado do clube, onde tem uma cerca viva, ao invés de muro. O trânsito, devagar-quase-parando. Reparo que a planta está grudada em um alambrado com arames mais bem trançados e fechados do que de costume.

— Coisa mais esquisita essa cerca, né, filho?

— É...

— Olha isso! Não dá nem pra enfiar a mão no vão da cerca.

— Sabe o que é, pai?

— Sei lá...

— É pra gato que não é sócio não entrar.

Quando era rodízio da placa do meu carro, eu pegava o da minha irmã, emprestado, para buscar o Miguel, o meu terceiro filho, na escola. Morávamos nas proximidades. Na volta, deixava o carro na garagem do prédio dela e ‘escondia’ a chave no pneu esquerdo, dianteiro, conforme havíamos combinado.

O Miguel, junto comigo.

— Por que você esconde a chave aí, pai?

— Fala baixo! Sua tia não está em casa agora, filho. O chaveiro não passa debaixo da porta. Então, deixo a chave aqui na roda. Ela pega mais tarde.

Depois de um tempo, vendo eu fazer sempre a mesma coisa, ele me propõe:

— Pai, deixa eu esconder a chave hoje! Tenho um lugarzinho que eu duvido que ela vai achar.

Meu quarto filho, o Leo, estava me enchendo para comprar um brinquedo muito caro e que não era para a idade dele.

— Esse brinquedo, só se eu ganhar na loteria, filho.

Ele passou a me encher para jogar na Mega Sena.

— Jogou, pai?

— Joguei.

— E quando é que a gente vai ganhar? Vai dar pra comprar, né?

— Não sei se vamos ganhar. Torço pra isso, mas é muito, muito difícil, filho.

— E quando é que a gente fica sabendo quem ganhou?

— Pela televisão.

— Televisão?

— É! É um sorteio que passa na televisão.

— Mas quando?

— Sábado de tardezinha.

Íamos viajar para a chácara de amigos no interior, no final de semana. Ele ficou pensando, preocupado.

— Pai, lá na chácara pega a Mega Sena?

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