O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Vizinhos de frente

Duas torres. Uma de frente pra outra. O casal mudou-se para o condomínio assim que o filho completou três anos. O apartamento é o do décimo quinto andar. Lá embaixo, playground, piscina, salões de festas e de jogos, biblioteca, academia de ginástica. Tudo em cima.

— Não lembrava que o prédio vizinho fosse tão próximo, meu bem.

— Também não exagera, momô. Daqui ali tem uns vinte metros. No mínimo.

— Não gosto de ser vigiado pelos vizinhos. Repara só o dezesseis e o dezessete. Chega aqui na janela. Enxergam tudo aqui dentro. Olha lá a gordinha do dezesseis, fumando na janela. Já tá curiosa.

— Larga mão, momô! Ninguém vai ficar te olhando de cueca samba-canção no sofá, vendo futebol e tomando cerveja.

— Odeio essas coisas de ficar bisbilhotando a vida dos outros.

— Vamos colocar uma cortina, então.

— Nem pensar! Fala isso pra me irritar. Fico sufocado, você me conhece. Tem que ter luz da rua. Luz!

— Desculpa. Disfarça. Olha os nossos vizinhos de andar, momô!

Um jovem casal, com duas filhas pequenas, maiores que o pequeno deles, entram no apartamento de lá e nem reparam nos novos vizinhos de cá.

— Ô mulherzinha feia! Magricela...

— E o que o senhor tem com isso? Tava esperando uma gostosona de vizinha, por acaso?

Ela, a vizinha, revelou-se muito simpática no dia que ambas abriram a janela da sala ao mesmo tempo. Gritou de lá: “Muito prazer! Se precisarem de alguma coisa, é só interfonar”. Pelo sotaque, carioca. As meninas logo apareceram na janela para dar tchau para o menino, que adorou a brincadeira.

— Carioca é muito folgado, meu bem. Daqui a pouco tão convidando pra tomar lanche e comer bolo.

— E o que que tem? As crianças se deram tão bem...

Duas semanas depois, a família de lá, do mesmo andar, desaparece. O zelador contou depois que eles se mudaram para outro apartamento, no mesmo condomínio, para um andar mais baixo.

— Cada louco com sua mania. Carioca magricela...

— Quem sabe agora, não vem uma loirona gostosona?

— Não é nada disso, meu bem. Já disse e repito: não estou nem aí com a vizinhança. Só quero ficar na minha.

O apartamento da frente ficou quase um mês desocupado. O zelador informou o motivo de tanto tempo sem morador nesse imóvel, já que os demais do condomínio eram disputadíssimos: o proprietário exige três aluguéis adiantados. Mais: os cariocas saíram de lá, porque o mesmo proprietário, pentelho, fazia questão de visitar o imóvel a cada seis meses, para ver em que estado se encontrava.

Novos vizinhos aparecem.

— Já morreram com três aluguéis, os idiotas.

— Parecem jovens, momô. São quatro. Três meninos e uma menina.

— Já saquei. Isso aí tá me cheirando república de estudante.

— Ótimo! Estudante é animado. Fazem festas. Parecem bonitinhos, olha lá.

— Bonitinhos... Daqui a pouco tão fumando maconha com a janela aberta. Anota o que eu tou te dizendo. Isso vai dar merda. Jovem, hoje em dia, só quer saber de beber e fumar maconha. E dar risada.

— Larga mão de ser preconceituoso, momô. Deixa os garotos se divertirem. Disfarça. Tão olhando pra cá...

Depois de uns dias, o casal descobre, pelo zelador, que o apartamento do vizinho de frente fora alugado para funcionar como estúdio fotográfico. E as sessões de fotos são sempre à noite.

— Olha, momô! Que garota linda!

— Eu manjo essas daí. Magricelinhas, perninha fina. Reparou nos cambito? Parece uma garça. Coisa horrorosa. Essas meninas só comem alface. Não quero nem olhar.

— Mas são lindas de rosto.

Nos dias seguintes, sempre às noites, acontecem as sessões de fotos. Garotas magricelas, de vermelho, e rapazes sarados, de negro. Elas, vestidas à moda anos 20, com chapéus. Eles, de coletes, sem camisas por baixo, com bonés.

— Olha aquilo, momô! O menino tá de cueca de couro!

— Cueca de couro? Preta? Viado!

Não deram três meses, o apartamento estava vazio. O zelador informou que os jovens foram convidados a se retirar do imóvel.

Mais um tempo, o apartamento vizinho da frente ficou desocupado. O zelador informou que, achava, o proprietário resolvera vender seu imóvel. Numa tarde de domingo, um jovem casal aparece circulando por todos os cômodos do apartamento, interessados por cada espaço.

— Ela é mais alta do que ele.

— E o que que tem isso, momô? Gostou?

Começa uma reforma no apartamento da frente.

— Derrubaram a parede da sala pela metade, meu bem. Olha lá. Por que não tiraram tudo?

— E eu é que sei? Esquisito... Mas juntando com o quarto, vai dar uma bela de uma salona. Espaçosa. Tou gostando de ver.

Alguns dias depois...

— Não te disse que ela é mais alta do que ele?

— Por que você fala tanto dela?

A reforma fica pronta. O jovem casal instala-se de vez.

— A parede marrom-escuro do fundo da sala e aqueles lustres, é ó do borogodó, meu bem!

— Concordo com a cor da parede, mas os lustres são lindos.

O jovem casal logo coloca uma persiana nas janelas da sala.

— Antipáticos! Isso deve ser idéia do baixinho. Até parece que estamos aqui pra ficar regulando a vida dos outros.

Não houve meio de olharem mais os vizinhos. Tudo fechado. Até que um dia, o vizinho de cá vê a vizinha de lá tomando banho. Não, a janela do banheiro não estava aberta, escancarada. Pelo vidro fosco do banheiro dava para ver perfeitamente a silueta da mulher. Tudo. Inclusive, e principalmente, o contorno dos seios. O esposo de cá ficou louco pela esposa de lá. Não contou nada para a sua patroa.

A vizinha não tinha hora certa para tomar banho. As vezes, bem cedo, antes das oito da manhã, o horário que o vizinho de cá abria a janela do quarto. Outras, à noite, depois que voltava do trabalho. Teve um dia que, falta de sorte, olhou pra lá e viu o marido tomando banho. Não quis nem olhar. Baixinho desgraçado. Banho mais sem-graça.

As cortinas da sala continuavam fechadas. Eles, de lá, achando que ninguém os via. E o nosso amigo, de cá, só de butuca, sem contar nada para a mulher. Pra quê? Tá tão divertido ver a vizinha...

Outro dia, o bicho pegou. Estava o vizinho vendo a vizinha tomando banho, quando aparece o maridão, quer dizer, o maridinho, para tomar banho com ela. Ela é muito mais alta do que ele, coitadinho. Pensou. E o baixinho já foi logo para os finalmentes, sem preliminares. Transaram debaixo do chuveiro, em pé, a menos de vinte metros do nariz dele, que suava frio e tremia.

A partir desse dia, sua única preocupação era descobrir os horários. Dela, dele e deles. Não sei o que ela viu nesse baixinho. Não se conformava. E o baixinho não ia lá só para pedir para mulher escovar as suas costas. Já chegava arrepiando. Cada vez mais. O casal quase não variava de posição, porque o assunto era em pé, rapidinho. Até que um dia...

Até que um dia, a esposa do lado de cá, viu seu esposo olhando o casal do lado de lá, no maior bem bom.

— Pra quem não gosta de bisbilhotar a vida dos outros...

— Ai, que susto!... Olha só isso, meu bem!

— Já tinha reparado, momô! E não é de hoje...

— Baixinho mais sem graça, né? Baixaria, isso daí.

— ...

— Olha só isso, meu bem, parece um cachorrinho!

— É... Manda melhor que você!

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