O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Paranoia

Domingo morno, final de tarde. Entro na rua de casa e tudo parado. Congestionamento incomum para o dia e o horário. Na contramão, surge uma viatura de resgate, apitando sem parar. Os carros se espremem nas laterais da rua, para o veículo passar. Motorista e acompanhante (paramédico?) estão com cara de poucos amigos.

— Nossa, pai, que irado!

O trânsito lento se reorganiza nas três faixas da rua. Agora aparece o carro do corpo de bombeiros, também na contramão, bem na minha frente, fazendo um barulho ensurdecedor, abrindo caminho entre os carros. Quase passa por cima do meu carro. Uns 10 bombeiros pendurados do lado, emburrados.

— Ih, pai! Será que pegou fogo lá em casa?

A chuva, que ameaça cair desde a hora do almoço, até agora, nada. Nem garoa. O que será que aconteceu? O trânsito anda bem devagar. Aproximamo-nos da entrada da garagem de casa. Cinco carros da polícia bem em frente, dificultando a passagem.

— É no nosso prédio, pai! Será que pegaram o assassino?

A porta do prédio onde moro está tomada por curiosos. No pátio da entrada, a maioria dos moradores conversa entre si. Uns trajam calções e sandálias rider, sem camisa (faz calor e ainda não choveu), bebem cerveja na latinha; outras, mais idosas, com roupas largas, sem sutiãs, cabelos despenteados, falam sem parar. Os moradores sentem-se em casa, à vontade. No meio deles, vários policiais, homens e mulheres, com coletes à prova de balas.

— Pai, manêro o revólver da mulher da polícia!

Os policiais conversam com um morador, jovem, alto e forte, de bermuda bege, camisa pólo vermelha e mocassim sem meia. Ao lado deles, sentado em uma mureta, outro jovem, igualmente alto e forte, de calção preto, de jogador de futebol, camiseta listrada de verde e branco, sandálias havaianas, surradas, pés sujos. Está cabisbaixo. Observa a movimento levantando os olhos, virando-os de um lado para o outro.

Uma jovem senhora, sempre metida nas coisas do prédio, dá uma espécie de entrevista coletiva, com seu cachorrinho branco no colo. Fala para moradores e curiosos, estes do lado de fora do edifício, agarrados à grade: Então é isso, gente. Acontece que o rapaz (o do mocassim sem meia) que está conversando ali com os guardas, comprou dois apartamentos de uma vez só no condomínio. O do décimo-sexto, onde mora com a família – é o pai do Bruninho, aquele fofinho ali, com o uniforme do São Paulo -, e o do décimo-sétimo, tá entendendo? Só que o do décimo-sétimo tava uma lástima, destruído pelo antigo morador, que morava sozinho.

— Pai, o ladrão detonou com tudo?

O cachorrinho late para as crianças, agitadas. A jovem senhora prende a boca animal: O de cima está em reformas agora. Acontece que o proprietário pagou o empreiteiro pelo serviço e o empreiteiro não repassou o dinheiro para o irmão dele, aquele ali sentado na mureta, de camisa listradinha, que é quem pegou o serviço, tá entendendo? Rolo de família, gente. Aí, o rapaz que tá fazendo a reforma interfonou para o proprietário reclamando do dinheiro. Acontece que o proprietário explicou que já havia pagado... ou pago?... vocês entenderam, né? Aí, o rapaz disse que ia saltar lá de cima, do décimo-sétimo andar, se não recebesse o pagamento. Imagina! Disse que o dinheiro era para mandar para a família, que mora no interior de Minas Gerais, essas desgraças. Um rolo, gente!

— Cadê o corpo, pai?

Acontece que o proprietário, precavido, ligou para a polícia, para os bombeiros e para o resgate do Samu, tá entendendo? Eu, no lugar dele, faria o mesmo. Aí, avisou os porteiros, para não se assustarem com a chegada das viaturas. Os porteiros, coitados, ligaram pra mim. Desci voando. Como vocês estão percebendo, o moço não saltou. Tá ali, sentadinho, calminho, bonitinho. Já estão se entendendo. Não vai precisar nem de beó. Tudo resolvido, gente! Ufa!

— Mas não morreu ninguém, pai?

A multidão se dispersa. O proprietário mostra para os policiais e para o moço da reforma, os torpedos que mandou, pelo celular, para o empreiteiro, confirmando os pagamentos. O policial mais velho coloca os óculos, aproxima os olhos do iphone do proprietário, diz positivo, faz um sinal com a cabeça para os demais policiais, e vai embora.

Tiro meu filho de oito anos dali. Passo pela portaria. Os funcionários conversam entre eles: Essa gente se assusta com qualquer coisinha. Palhaçada isso daí. Primeiro que o rapaz não ia saltar coisíssima nenhuma. Cachorro que late não morde, dizia o meu sogro. E precisava resgate, polícia, bombeiros, esse barulho todo, pra segurar quem pula de uma altura dessas? Não sobra nem pensamento, mermão!

— Tô cansado, pai! Tá na hora do Ben 10?

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Leonel Prata

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