O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Uma história de amor sem pé nem cabeça

Ele tomou um pé na bunda só porque repetiu à namorada que ela tinha pé chato e grande. Ela era complexada. Viviam em pé de guerra. Ela, pedante, ainda o chamou de pé de chinelo, por puro despeito. Ele nem ligou. Ela disse mais: pederasta! Ele nem aí. E, quer saber? Ela pegava muito no pé dele e ele não via a hora de dar no pé desse relacionamento pegajoso. Mulher bem mais velha do que ele, diga-se, cheia de pés de galinha.

Esse relacionamento nunca deu pé. Ela, arrependida, quis porque quis voltar. Bateu o pé. Ele não atendeu aos seus pedidos. Nem bem se livrou de vez da ex, um autêntico pé no saco, segundo contou aos amigos, a mulherada da pequena cidade em que ele vivia não largou mais do seu pé.

Ele tinha feito um bom pé-de-meia como pediatra, estava bem de vida. Era um pé de boi na profissão. Solteiro. Sentia-se em plenas condições para se casar e constituir família. O chamado bom partido, o genro que todas as mães sonham para suas pequenas. Tinha pedigree. Não era nenhum pé-rapado.

Ele chegou a pensar em botar o pé na estrada depois do final do namoro, sair gastando sua grana a torto e a direito, mas refletiu, recuou. Tinha os pés no chão. Nunca meteu os pés pelas mãos.

Voltou a jogar futebol no clube que deixara de frequentar na cidade, já que a ex, a pentelha, pegava no pé quando isso acontecia. Pé-quente, estreou no campeonato interno com o pé direito: fez o gol da vitória, o único do jogo, num petardo com o peito do pé esquerdo, de fora da área. Ele sempre foi craque, o rei das pedaladas. Orgulha-se de nunca ter tido pé de atleta.

Pé de valsa que sempre foi, livre da ex, pernóstica, voltou a freqüentar os bailinhos da sociedade local. Sempre fora cobiçado pelas garotas. Sua fama de pé de mesa corria de boca em boca na cidade. Dançava sem parar. Tinha pegada. Ficava com um pé atrás todas as vezes que uma ou outra parceira de dança se sobressaía na pista e vinha com conversinha de pé de orelha. Ele tinha certeza que elas queriam tirar o pé da lama, porque não paravam de lamber os seus pés, como que querendo algo mais além de dois pra lá e dois pra cá. Até as mais novinhas ficavam no pé dele, mas ele tirava o pé, não tinha a menor vocação para pedófilo.

Apesar de todo o assédio, ele tomou pé da situação afetiva que vivia e percebeu que bater pé no salão por causa de muié não dava mais pé. Estava na hora de encontrar uma mulher em pé de igualdade com ele.

Fim de semana prolongado, pegou seu Peugeot e meteu o pé na tábua rumo ao litoral norte. A providência se encarregou de colocar a perfeição aos seus pés. Estava pegando jacaré, com essas pranchas pequenas, bodyboard, quando viu, mais para o fundo, aonde não dava pé, alguém se afogando. O mar estava agitado depois do pé de vento e daquele pé d’água típicos de verão, de minutos atrás. Como estava com o pé de pato, tirou a moça da água com os pés nas costas.

Ele jura de pé junto que não, mas a respiração boca-a-boca o deixou sem os pés no chão. Rolou um clima ali no pé da barraca. Não arredou pé da praia até a jovem ficar de pé. Ela lhe agradeceu ao pé do ouvido e lhe pediu alguma coisa doce. Foi num pé até a barraca mais próxima e voltou noutro, com água de coco e canudinho, e também um pé de moleque, para adoçar a boca da garota perfeita, pedaço de mau caminho.

Nenhuma mulher que conheceu em toda sua vida chegava aos pés daquela jovem pedagoga, agora mais animada e falante. O universo conspirava a favor: estavam hospedados na mesma pousada, a mais ventilada de todo o litoral, a que tinha o pé-direito mais alto. Deixou-a no quarto para descansar, dormir um pouco, e foi para o seu, lavar os pés, tomar um bom um banho.

Lá pelas tantas, pé ante pé, foi até o quarto dela ver se ela já estava de pé. Por um momento chegou a pensar que ela podia ter dado no pé.

Entrou sem bater. Ela estava acordada, deitada.

Pelada.

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