O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Lugar Incerto e Não Sabido

Dona Mariquinha desperta todos os dias, religiosamente, às 5h, para rezar o terço. Depois, levanta-se, faz café, toma seu banho e arruma-se para trabalhar. Ela mora e trabalha no mesmo local: Sanatório Clemente Ferreira, que cuida de tuberculosos, distante poucos quilômetros da cidade. Cidade do interior. Funcionária exemplar, vive se gabando: sou a primeira a chegar e a última a sair do serviço.

Dona Mariquinha é servente, está no hospital há muitos anos, até perdeu as contas. Origem humilde, mal sabe assinar o próprio nome. Pelo seu permanente bom humor, é querida por todos.

Nessa madrugada, ela escuta um barulho estranho fora do sanatório, no pátio, parecido com um estalinho. Abre a janela, vê apenas o vulto de uma mulher parada na frente do hospital. Da janela mesmo, ela grita:

— Visita ou internação?

A mulher nada responde. Dona Mariquinha grita outra vez, para a mulher esperar só um segundinho, que já está indo. Veste seu jaleco, desce as escadas, abre a porta do hospital.

— Visita ou internação?

A mulher, alta, loira, muito bonita, pele clara, fala alguma coisa que Dona Mariquinha não entende.

— A senhora pode repetir?

A mulher está vestida com uma capa azul-claro, brilhante, sobre um vestido branco, de gola alta e mangas compridas. Usa uma espécie de touca, do mesmo tecido da capa, na cabeça. A mulher diz:

— Embaúra! Embaúra!

Muié mais esquisita essa daí, pensa Dona Mariquinha. A mulher estende uma jarra de prata, de uns vinte centímetros, mais ou menos, toda trabalhada, de brilho intenso. Sorri. Dentes brancos.

— Ah, já sei, a senhora tá querendo água.

— Embaúra!

Dona Mariquinha e a mulher vão até o bebedouro no hall de entrada. Antes de dona Mariquinha começar a encher a jarra de prata, a mulher tira uma caneca da capa, coloca água e bebe. Parece sedenta.

— A senhora pode tomar a vontade, essa água é muito boa. É que a Petrobras veio aqui na cidade há uns anos atrás para procurar petróleo. Encontrou só água. Uma água que saía bem quente, lá do fundo da terra. É essa mesma água aí. Repara o gosto dela. Dizem que tem flúor, sei lá, essas coisa, que faz bem pros dentes. Aqui na cidade quase ninguém tem cárie, sabia? Tudo dente bonito, igual aos da senhora. Tinha tanta água, que passou a abastecer a cidade e a região. A única coisa ruim dessa água é na hora do banho. A gente tem a sensação que o sabonete não saiu, sabe como é? Mas pode beber. Fresquinha, né?

— Embaúra!

Dona Mariquinha fala sem parar e a mulher repete sempre a mesma coisa. As duas caminham agora pelo corredor. A mulher levanta o queixo em direção aos dois automóveis estacionados em frente ao hospital, visíveis pelo vidro da porta.

— O Landau é do médico de plantão e o Gordini azul é do administrador.

Antes de Dona Mariquinha passar a jarra de prata para a mulher, esta segura sua mão, dá dois tapinhas no seu ombro; carinhosa.

— Embaúra!

— A senhora aceita um cafezinho? Passei agorinha.

A mulher sorri, como que agradecendo, e afasta-se. Dona Mariquinha percebe que a visitante, ao passar pela porta, não segue para a saída, mas em direção aos canteiros, no sentido oposto. Esse caminho leva aos muros altos do pátio.

Nesse instante, acende-se uma luz difusa, iluminando todo o canteiro. Dona Mariquinha vê uma coisa estranha, no formato de uma pera, flutuando, mais ou menos a um metro do chão. De dentro desse objeto, por uma abertura, surge uma pessoa, que estende a mão para a mulher. Ela olha para trás, acena e entra naquilo.

Dona Mariquinha vê ainda, por uma das janelinhas daquilo, mãos acionando dispositivos em um painel luminoso. Nesse momento, o objeto decola, verticalmente, emitindo o mesmo som de estalinho que ouvira quando rezava o terço.

Assim que o objeto some no céu, Dona Mariquinha fecha a porta do sanatório, começa a chorar desesperadamente. Faz escândalo: grita, acorda todo o hospital. Urina-se toda na escada de volta para o seu quarto. Começa a transpirar, como nunca em toda sua vida. Encharcada, ajoelha-se ao lado da cama e começa a rezar.

O administrador do hospital e esposa batem à sua porta, preocupados com a gritaria. Dona Mariquinha, soluçando, relata o ocorrido.

— A senhora precisa se acalmar, Dona Mariquinha. Toma uma água com açúcar.

Dona Mariquinha sente-se ofendida com a reação do casal. Troca de roupa e leva os dois até o local onde estava o objeto voador. Ainda no corredor, administrador e esposa constatam, perplexos, marcas de sapatos dentro do sanatório – dela e da mulher. No lado de fora, no pátio, sobre o gramado, há uma depressão circular, com o terreno chamuscado, de aproximadamente dois metros de diâmetro por quinze centímetros de profundidade.

Vale registrar que na noite anterior, o médico de plantão e vários funcionários do hospital passaram algum tempo curtindo a movimentação de uma estranha bola luminosa no céu.

Dona Mariquinha é levada para São Paulo, para exames neurológicos. Acham que ela pirou. Reviram a mulher de ponta cabeça. Nada de anormal é constatado no comportamento dela.

Passado um tempo, Dona Mariquinha observa que nenhum tipo de vegetação voltou a crescer no lugar onde a ‘pera’ pousara. Ela fica um tempo no pátio, olhando para o canteiro queimado. Rola uma lágrima em seu rosto. Ela sorri:

— Embaúra!

***

Esse episódio ocorreu na madrugada de 25 de agosto de 1968, no Sanatório Clemente Ferreira, em Lins, hospital dirigido pelo meu pai, médico. Abalou a opinião pública, foi amplamente divulgado pela mídia. Maria José Cintra, a Dona Mariquinha, deu entrevistas para os principais jornais e revistas do país, apareceu na televisão.

A Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV) foi até Lins para ouvi-la. A Sioani (Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não-Identificados), da Força Aérea Brasileira, retirou amostras do local e as enviou para o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos, para estudos. Foi um dos incidentes mais curiosos acontecidos na história da ufologia brasileira.

Em 2 de outubro daquele ano de 1968, na mesma Lins, esse Lugar Incerto e Não Sabido, Toríbio Pereira, tratorista, após uma ‘revoada’ de OVNIs sobre a periferia da cidade, foi abduzido por um disco voador. Mas isso é uma outra história.

Acredite se quiser.

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