O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

E você, já tocou em quem?

Início dos anos 90. A NBA, liga norte-americana de basquete, entra com tudo nos lares brasileiros, pela televisão. Meus filhos mais velhos, João e Gabriel, então pré-adolescentes, disputavam o Campeonato Paulista de Basquetebol, pelo Esporte Clube Pinheiros. Federados. Federado, pra quem não sabe, é quem compete em torneios oficiais de alguma federação, seja basquete, tênis, futebol, etc., com direito a carteirinha com 3x4 e tudo. Os dois eram vidrados nos acrobáticos atletas dos Estados Unidos.

João, o mais velho, torcia pelo Chicago Bulls, de Michael Jordan, o Pelé do basquete. Até hoje não apareceu um jogador como ele. Nem vai aparecer. Gabriel, tinha que torcer por um outro time, já que irmão não copia irmão nessas coisas, não é mesmo? ‘Torcia’ pelo LA Lakers, apesar de ser fã do Jordan. O quarto deles era só flâmulas e pôsteres dos ídolos do melhor basquete do mundo.

João, já adolescente, abandonou as quadras. Estava mais pra baladas do que pra boladas. Apesar de ter desistido do basquete ‘profissional’ tão prematuramente, joga (e bem) até hoje. Gabriel continuou mais um ano (também joga bem até hoje), como federado.

Na mesma categoria do Gabriel, infantil, jogava o Leandrinho, do Palmeiras. Sim, esse mesmo Leandro Barboza, que agora brilha na NBA. O Gabriel diz que nunca ninguém marcou melhor o Leandrinho do que ele. Duas categorias abaixo, aparecia um tal Marcelinho, outro da seleção brasileira atual, o Huertas. Mas isso é outra história. O fato é que todos os jovens basqueteiros (federados) do Brasil eram vidrados nos basqueteiros (profissionais) dos Estados Unidos.

O Pinheiros tinha um técnico, da chamada categoria de base, também boleiro profissional, atleta da seleção adulta, gente boa, que trabalhava, nas horas vagas, com turismo. Não é todo esportista que se dá bem neste país de Olimpíada e Copa do Mundo. E esse técnico-agente-de-turismo descobriu o caminho das Índias, ou melhor, da América: levar essa molecada pra ver jogo de basquete de gente grande, nos ‘Isteites’.

Aqui começa a história.

O técnico-agente preparou um pacote de viagem caprichado pros meninos: conhecer Chicago e Orlando e assistir aos jogos de basquete dos times das duas cidades.

O primeiro jogo foi Chicago Bulls x Houston Rockets. Em quadra, nada menos que Michael Jordan, Scottie Pippen, Charles Barkley e Clyde Drexler, além de Hakeem Olajuwon e Dennis Rodman, entre outros. Pra quem acompanha NBA, sabe de quem estou falando. Pra quem nunca se ligou no bola-ao-cesto, esses aí são algumas das estrelas de primeira grandeza da história do basquete mundial de todos os tempos.

O ingresso, lógico, era para a última fileira das arquibancadas. Nem de binóculos. Os brasileiros basqueteiros deram um jeitinho: burlaram os seguranças e foram sentar-se nas cadeiras vazias, já previamente ‘estudadas’, lá na primeira fila, na chamada área vip, no gargarejo. Não estavam nem aí com o jogo. O que eles queriam era participar da festa, do espetáculo, chegar perto dos jogadores, ouvir o quique da bola na quadra, o barulho dos solados dos tênis dos jogadores no chão do ginásio. Ginásio para 25 mil pessoas. Lotadaço. Os donos das cadeiras da primeira fileira costumam chegar em cima da hora do jogo, afinal, é tudo numerado, lugar garantido. Os donos das cadeiras da primeira fileira não acreditaram quando viram aquele bando de jovens, barulhentos, sentados em seus lugares sagrados, adquiridos com meses de antecedência. Vieram os seguranças, dois ‘armários’, que podiam perfeitamente estar dentro da quadra. Nossos brasileiros basqueteiros ainda deram um migué: Como? What? Mas a cadeira estava vazia! Sorry aí, tio, foi mal.

Logo, descobriram os corredores de acesso aos vestiários. Correram pra lá. No intervalo, com certeza, os ídolos passariam por ali. Conseguiram ‘lugar’ no túnel do Houston. A expectativa era ser cumprimentado por eles. Mas eles passavam direto e nem ligavam pros fãs. O Gabriel e o Mickey (não o Mouse, um amigo do meu filho, outro basqueteiro) gritavam os nomes dos atletas pra chamar atenção e estendiam os braços. Alguns olhavam. E batiam nas mãos deles.

— E aí, Mickey, tocou em quem?

— Toquei no Barkley, e você, Gabriel?

- Toquei nele, no Olajuwon e no Drexler. Tocou em quem, Gamboa (outro brasileiro basqueteiro, meio tímido)?

— Em ninguém, ué! Era pra tocar?

Apenas o Gabriel e o Mickey conseguiram tocar nos jogadores. E ficaram se gabando por isso. Nos outros jogos da excursão, a mesma coisa: invasão da área vip, ‘miguelada’, saída estratégica para o túnel, braços estendidos.

— Toquei no Jordan. Mãozão suada, cara! Não lavo a minha nunca mais.

— Toquei no Pippen. Ele até deu um sorriso pra mim. Dentes brancos.

Voltaram para o Brasil e continuaram a temporada de basquete infantil. Nessa época, dois atletas da NBA vieram ao país dar clínicas: Patrick Ewing e Allen Iverson, outros monstros sagrados. Gabriel e Mickey ficaram por conta.

— Não toquei neles, não, cara! Dei um abraço! Batia no umbigo deles, é verdade, mas e daí? Olha os autógrafos. Letrinhas caprichadas, brother Olha isso. Imaginava que um cara desse tamanhão tivesse uma letrinha desse tamanhinho?

Gabriel emoldurou os autógrafos. E trouxe a ‘cultura do toque’ pra dentro de casa. Pra família. Pros irmãos. Pros amigos.

A partir de então, qualquer reunião social, encontro de amigos, conversa de bar, se alguém cita alguém famoso, tipo: fui numa festa e o Antônio Fagundes estava lá com a atual mulher, nada de especial, aliás, muito pelo contrário, e ele, gatésimo, uma simpatia... a pergunta é a mesma.

— Tocou nele?

Ir aos lugares, quaisquer, cruzar com gente famosa e não tocar, não tem nada a ver. Tá por fora. O importante é tocar. Ainda que sem querer querendo, tipo esbarrão.

Eu, por exemplo, já toquei no Pelé (tinha uns 10 anos de idade, me borrei todo), no Ayrton Senna, no Chico Buarque...

E você, já tocou em quem?

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