O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

Cartão de Natal

O cartão de Natal está no chão, passado por baixo da porta: Ao Morador. Escrito assim, como se fosse sobre uma linha invisível, bem no meio do envelope branco. Com certeza não foi nenhum porteiro quem escreveu, porque conheço a letra deles. Leio a mensagem. O cartão não está assinado.

Quem fez isso? Quem enviou?

Pela letrinha e pelo conteúdo da mensagem, penso que só pode ter saído de mentes de várias pessoas, cada uma dando um palpite. Uma só cabeça não seria capaz.

Não é coisa dos porteiros do prédio, com certeza, porque o cartãozinho deles é igual todos os anos e vem assinado. A maior preocupação do pessoal da portaria sempre foi o livrão, não o cartão.

O ‘Livro de Natal’ fica na portaria. O morador, quando passa por lá, leva uma ‘bom-dia’ dos porteiros:“já-assinou-o-nosso-livro-de-fim-de-ano-doutor?”. Meio sem jeito: “depois-eu-assino-com-certeza-tô-com-um-pouquinho-de-pressa-agora”. A maioria, contrariada, acaba colaborando. Mas só depois de um tempo, porque os primeiros assinantes estão na faixa entre os 500 e os 1.000 reais. E aí já é demais! Com certeza, o zelador, em nome dos funcionários, pede para os condôminos mais abastados participarem primeiro, para puxar o restante da lista. Depois do décimo nome da relação, o valor já está nos 100 para 50. Têm uns que dão 20 e até 10. E também os que não dão nada.

Voltemos à mensagem anônima, em minhas mãos. Imagino os responsáveis pela criação desse cartão trocando ideias de como fazê-lo. Todos falando ao mesmo tempo.

— Bem, pessoal, precisamos fazer o nosso cartãozinho de Natal deste ano e distribuir nos prédio do bairro. Tradição!

— Vi um modelo que a minha esposa recebeu da madrinha dela de Aracaju que é um espetáculo. Tem uma Bíblia cor de laranja com uma pomba branca na capa que é coisa de cinema.

— Pelamordedeus, pomba de novo não!

— Ano passado foi o Papai Noel no trenó com aqueles veadinhos - com ‘e’ que se fala esses viadinho de Natal, né? – voando no céu cheio de estrelinhas amarelas.

— Esse Papai Noel aí foi no ano retrasado e parece que você nunca mais esqueceu, não é não, seu boiola? Ano passado foi a pomba prateada brilhante, altinha e lisinha assim no cartão, quando a gente passa o dedo. Fulano comprou nas Americana.

— Agora é diferente. A pomba é branca e tem o livro da Bíblia. E não tem altinho nenhum.

— É relevo não-sei-das-quanta que se chama esse voluminho aí, se não me falha a memória. Meu cunhado trabalha numa gráfica e manja dessas coisa.

— Fulano, você conhece o gerente das Lojas Americanas aqui da esquina, não conhece? Vai lá e pede uns três modelo pra gente escolher.

— E a mensagem?

— Que mensagem?

— Os dizeres. Qual vai ser os dizeres?

— A mensagem já vêm escrita no cartão, mané! Não precisa escrever nada. É só entregar.

— Não, não! Além dos dizeres do cartão, temos que fazer uma mensagem nossa, me entende! É mais... é mais...

— ... ‘importante’!

— ... não, mais... mais... ‘personificante’!

— ‘Personalizada’, animal!

— Mais ‘pessoal’, ignorante!

— Isso daí, mais ‘pessoal’. Foi isso que eu disse: mais pessoal. Lógico!

— E quem vai escrever os dizeres?

— O sicrano.

— Sicrano coisa nenhuma. Só sabe fazer garrancho e vai escrever besteira.

— Posso pedir pra minha esposa. Ela tem uma letrinha que só vendo. Era secretária de um escritório de contabilidade lá na minha cidade, quando eu casei com ela. Ela que fazia as carta da firma. Ela é muito boa pra essas coisas. É caprichosa.

— Eu concordo!

— Fulano, vai nas Americana e fala com o gerente seu amigo.

— Gerente, não! Caixa! Mora lá na minha área. Sangue bom. O irmão dele joga bola comigo.

— Vai lá logo e traz os cartão.

— Mas quais vão ser os dizeres? Só fico preocupado com a nossa mensagem pessoal. Tem que ser da hora. Craneada.

— Pode deixar com a minha esposa. Vou ajudar ela bolar os dizeres, ela é muito boa pra essas coisa. Até faz umas poesia diferente, precisa ver. Show de bola. O único problema é que ela escreve meio torto: começa lá em cima e termina cá embaixo, tá compreendendo? Mas eu vou emprestar uma régua pra ela escrever retinho, pode deixar.

Pelo visto, conseguiram os cartões nas Lojas Americanas, só esqueceram de assinar.

O meu, aqui em minhas mãos:

Ao morador

Um Feliz natal e um próximo Ano novo São os Votos Sinseros dos Amigos à Vossa senhoria e Exma. Família. Nesta. Atensiosamente.

Também são os meus votos. Sinceros.

Assino embaixo.

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Leonel Prata

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