O negócio é dormir sem medo do outro dia. (Raul Seixas)

A herança

Duas irmãs, da capital, entre 55 e 60 anos, reencontram-se, muitos anos depois, com um tio, do interior, viúvo, sem filhos, 70 a 75 anos. Doente. ‘Não passa deste mês’, assegura uma prima. ‘Tá nas últimas. Parece até que foi desenganado, coitado’.

As irmãs e o tio aproximam-se. Relembram os tempos de infância das duas, as viagens junto com o tio e os primos para Sepetiba, as namoradas do tio, as mesmas histórias que ele sempre contava para os sobrinhos: Banho, só de roupa, pra não ficar resfriado; antes de dormir, tirar as pernas e os braços, pra descansar melhor o corpo, e o ‘pirulito’, pra não fazer xixi na cama.

Descobrem que o tio tem dinheiro no banco e muitos dólares escondidos em algum lugar. Pelo menos uma vez a cada dois meses, ele viaja para a Europa ou para os Estados Unidos, de primeira classe - hospeda-se no George V, em Paris, e tem uma suíte permanente no Waldorf Astoria, em Nova York. Quando embarca, esconde milhares de dólares nas pernas e na cueca. Sempre traz as mesmas lembranças para as sobrinhas: chocolate suíço, Lindor, comprado nos free shops, que elas adoram, mas odeiam, porque vivem de regime. Assim mesmo a amizade entre as irmãs e o tio só cresce.

As duas passam a controlar a vida afetiva do tio. Sim, ele continua na ativa, vive acompanhado de belas mulheres (peruas) nas suas viagens internacionais. Ficam sabendo, por um primo, que ele colocou uma prótese peniana e que está sempre ‘alerta’ para o que der e vier, principalmente para quem vier e der.

O estado de saúde do tio piora bastante. ‘Desta vez ele não escapa’, avisa outra prima. As irmãs acodem-no, levam-no para um médico diferenciado, que o opera, transplanta alguns órgãos, lhe dá sobrevida. O tio fica-lhes eternamente grato. Ele revela, somente para elas, que já fez o testamento com a distribuição de seus bens: os imóveis e mais ‘umas coisinhas aqui e ali’. Os beneficiários seriam os sobrinhos. Elas ficam esperançosas de ter um dinheirinho extra, afinal, vivem da aposentadoria do funcionalismo público.

As duas ficam encafifadas com o ‘umas coisinhas aqui e ali’. Imaginam logo os milhares de dólares, com certeza escondidos no apartamento onde o tio vive.

Pouco tempo depois o tio morre. As duas voam para o interior. Chegam a tempo de ver o corpo ainda no quarto do apartamento. Ao seu lado, em prantos, inconsolável, apenas a fiel empregada, de mais de vinte anos de dedicação. As irmãs sentem certo exagero no sofrimento da mulher.

Depois do enterro, as duas vão para o apartamento do tio. Testamento? Só daqui uns cinco dias, na presença de um juiz. Elas, por conta dos bons serviços prestados ao tio nos últimos meses, sob o olhar da empregada, começam a ‘dividir’ os objetos da casa. Nada mais justo, sentem-se no direito, já que o tio as tinham como herdeiras. Separam móveis, tapetes persas, louças tcheca, pratarias, esculturas, livros, etc, etc.

Enquanto fazem a limpa, conversam com a empregada. Ficam sabendo, pela própria, que o tio e ela foram amantes desde sempre, apesar de ela ser casada com o zelador do prédio; inclusive, partiu dela a idéia da tal prótese, que tinha visto numa propaganda em uma revista de uma colega.

Os objetos menores são colocados em caixas de mudança; os móveis, levados para um depósito, para posterior transporte para a capital. A empregada observa os movimentos das duas.

Com a casa limpa, a preocupação agora é com os dólares escondidos. Só podem estar ali. Começam a vasculhar. Enquanto uma, com uma chave de fenda, abre cada tomada e interruptor de luz da casa, morrendo de medo de levar um choque, a outra, com um cabo de vassoura, bate no teto e nas paredes, na expectativa de ouvir um ruído oco, que denuncie um esconderijo. Nada de dólar. Tiram todos os quadros das paredes da casa. Nada de dólar. Descobrem um cofre atrás de um quadro de mulher nua, na suite.

Depois de alguns telefonemas, localizam um profissional especializado em abrir cofres. Chega ao apartamento um senhor de óculos escuros, bengala, cego, perito em arrombamentos, acompanhado por um garoto. O cego tira os óculos, fecha os olhos, abre o cofre em poucos minutos. As duas se aproximam, excitadas. É a última esperança. Dentro do cofre, nada de dólar. Apenas uma foto do avô delas, pai do tio, bem jovem, fantasiado de pierrô. Ao saber disso, o cego tem um ataque de riso.

Finalmente chega o dia da leitura do testamento. O juiz, na presença apenas de familiares, abre o documento, escrito à mão, letra de forma. Elogia o conteúdo, ‘sem rasuras, bem redigido, conforme dita a lei’, e anuncia: O imóvel assobradado, dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro, localizado no Bairro da Abadia, nesta comarca, e todos os objetos (móveis, louças, etc. – no anexo 1 deste documento) do apartamento de três dormitórios, suíte, sala, copa, cozinha e dependências de empregadas, sito na região central desta municipalidade, ficam para a senhora Maria do Carmo dos Santos (a empregada); o apartamento, vazio, deve ser vendido, o dinheiro arrecadado dividido em partes iguais, entre os 24 sobrinhos herdeiros.

— Como?

As irmãs não acreditam no que acabam de ouvir. Vinte e quatro sobrinhos? E o dinheiro todo? E os dólares? Os dólares! Achavam que teriam alguma recompensa. Envergonhadas com a situação, conversam entre si, bolam um plano. Marcam encontro com a empregada, no apartamento vazio.

No apartamento vazio, a empregada, na janela, olha para fora, abre a boca para articular alguma coisa, mas irmãs a interrompe. Sem deixá-la falar, as duas dão a ordem: Compramos tudo aqui dentro, Ducarmo!

A proposta: dois cheques, trinta e sessenta. Por um preço bem abaixo do real, diga-se. Maria do Carmo aceita na hora. Pega as duas folhas, coloca-as no sutiã. Tudo resolvido. ‘E não se fala mais nisso!’, despede-se a irmã mais velha.

— Bem, na verdade, eu não tinha nem onde colocar tanta tranqueira. Podem ficar com tudo. Eu só queria uma coisa...

As duas gelam.

— Pode falar, querida!

— Eu só queria mesmo é o disco da Madonna.

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